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Telas solitárias e telas comunitárias

Entre todos os usos das telas, os melhores são aqueles que fazemos juntos

Há alguns dias tive a bela oportunidade de observar meu filho em duas situações completamente diferentes de uso das telas. Como quase todos os colegas adolescentes, ele joga em seu computador aos finais de semana.

Enquanto jogava sozinho, notei que estava sério, recostado na cadeira e com uma expressão que, se não era tédio, também não era algo muito distinto.

Dias depois, em uma reunião familiar, jogou o mesmo jogo com um primo de idade próxima, no videogame, cada um com seu controle.

Do quarto ao lado, eu ouvia risadas, e, quando dei uma olhada, vi os dois conversando, inclinados para frente, quase com um pouquinho saudável de ansiedade, dizendo um ao outro o que fazer e comentando jogadas anteriores. Ou foi isso que entendi.

O contraste me colocou para pensar. Claro que as horas de jogo predominantemente solitário têm poucos aspectos positivos; os negativos predominam. A tela compartilhada, por outro lado, era uma brincadeira, com todos os componentes de um jogo de tabuleiro animado.

Em nossa justa condenação das telas, com suas mecânicas de rapto da atenção, sequestro da criatividade e enclausuramento solitário, perdemos a oportunidade de uma perspectiva mais rica.

Quando adotamos um ponto de vista menos dicotômico, também soamos menos assustadores para nossos adolescentes. Eles gostam das telas, e nosso discurso condenatório não abre espaço para diálogo, nem para a compreensão mais ampla de o que é que eles veem de tão positivo na tecnologia que nos assusta.

Imagine se, por exemplo, em vez de dizer ao seu filho que ele não pode jogar, você convidasse um amigo para jogar com ele.

Imagine se, em vez de cortar o tempo de tela pela metade, você o mantivesse, mas passasse metade do tempo junto com as crianças, jogando o mesmo ou outro jogo, trocando, rindo e aprendendo?

Quero dizer: não estou oferecendo uma solução para o mal-estar tecnológico. Ele é real e sua multidimensionalidade, que abrange desde o desgaste climático causado pelos data-centers até a crise civilizatória imposta pela IA generativa, não deixa dúvidas de que há malefícios incontornáveis.

Por outro lado, talvez valha a pena não jogar fora o bebê com a água do banho. Há oportunidade para a convivência humana no reino da tecnologia, e é uma oportunidade que podemos aproveitar.

Duas recomendações de jogos cooperativos

O rei dos jogos virtuais continua sendo o Minecraft, e com toda a justiça. Tratam-se de mundos feitos de blocos de vários materiais: madeira, terra, pedra… É possível construir qualquer coisa, desde castelos de areia até grandes bibliotecas, fazendas ou cidades. As missões são estabelecidas pelos jogadores. Funciona em todos os sistemas operacionais e na maioria dos consoles de videogame e dispositivos móveis, e pode ser gratuito.

Um jogo mais leve, para partidas mais curtas e muita – muita! – risada é Pikuniku. Com dois personagens com pernas muito longas, que se metem em trapalhadas e causam confusão enquanto os jogadores tentam superar obstáculos apesar das leis da física. O jogo é simples, em 2D, com cores leves, e roda em computador, mobile, Xbox e Nintendo Switch. Não é gratuito, mas pode ser encontrado por valores acessíveis, a partir de onze reais.