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Sobre listas de Ano Novo e casulos de borboleta

Depois de muitos anos sem realizar as metas pretendidas, dei um tempo nas listas. As minhas, ano após...

Depois de muitos anos sem realizar as metas pretendidas, dei um tempo nas listas. As minhas, ano após ano, por mais de uma década, incluíam perder peso, fazer exercícios, cuidar da alimentação, fazer menos dívidas e ler mais.

Mesmo querendo realizar, achava que era lugar comum. Eu era só mais uma correndo atrás do mínimo e, mesmo assim, não chegava onde queria. Evitava pensar no futuro, porque era sempre a mesma coisa. Enquanto o ano escorria entre os dedos, eu refletia, calada, com a auto sabotagem de sempre.

“Para que cuidar da alimentação nessa vida tão sem graça? Eu ando tão cansada… Esse chocolate não vai me fazer mal, é só hoje. Amanhã, eu começo os exercícios. Essa parcela é pequena, não vai fazer diferença no orçamento. Depois eu leio, tô com tanto sono” – era o que eu repetia.

No dia 31 de dezembro, era o mesmo peso na balança, o dinheiro curto, o mesmo jantar, as mesmas pessoas, as discussões pelo prato que eu fiz, a indecisão pelo que fazer no dia seguinte, o primeiro do ano. E tudo voltava ao começo, como um eterno retorno triste. Parecia a Caverna do Dragão, aquele desenho animado que quem tem a minha idade assistiu na infância. A gente pensa que vai dar certo e, no fim, continua tudo igual. Cadê o Mestre dos Magos? Sumiu de novo…

Esse marasmo permaneceu até chegar a pandemia. Um ano sem escola para as crianças, convivendo com problemas psicológicos, rotina de homeoffice pesada. Estresse, medo do futuro. As metas de sempre foram esquecidas e eu focava em vencer mais um dia. “Deus, me ajude a não morrer hoje”. Essa era a oração que eu fazia em silêncio.

Quando a pandemia amainou, algo tinha se quebrado. Eu tinha fome de viver. Não aguentava mais aquele cinza indefinido. Queria cores mais fortes e fui forçando a velha casca que me circundava. Precisava correr o mundo, falar com as pessoas, abraçar, ouvir histórias reais, olhar nos olhos, ao invés da ligação de vídeo e as mensagens no WhatsApp. Sentir o frio da barriga que toda primeira vez traz consigo. Eu era outra, o mundo também.

Em vez de querer perder peso apenas para agradar o mundo, eu fui pensando que poderia ter mais tempo com os que quero bem, se tivesse mais saúde. Que poderia ter mais disposição para passear e me divertir. E seria aos poucos, sem dietas malucas. Eu não precisava de tantos livros assim, para quê colocar mais um na estante? Preciso poupar e comprar coisas mais urgentes, como roupas e calçados. Eu posso ler assim que acordar por 15 minutos. Na hora de dormir, eu já vi que não consigo. Vou mudar a estratégia.

 

“Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.

Carlos Drummond de Andrade in Receita de Ano Novo (1977)

 

Como eu mudei, tudo ao redor foi se modificando junto comigo. As oportunidades de melhoria começaram a surgir. Primeiro, a casa ficou mais clara e espaçosa porque me desfiz de muitas coisas que não tinham mais sentido.

Comecei a colecionar as primeiras vezes e a vida foi mudando. A escrita me lançou para o mundo como autora e não tinha mais volta. Os caminhos foram se escancarando. Voltei a trabalhar como jornalista presencialmente, perto dos meus amores maiores: o Mara Hope e a Ponte dos Ingleses.

Fiz uma nova lista de metas, mais subjetiva e colei no meu caderno desse ano. Quero rever mais meus amigos e familiares. Sair com meus filhos e apresentar o que sei de Fortaleza para eles, conhecer o novo e experimentar a surpresa juntos, experimentar o frio na barriga de arriscar o novo.  Não quero mais economizar o tempo de vida que me resta. Eu não sei quando irei partir, preciso aproveitar melhor, me importar menos com a opinião dos outros. Ver o dia nascer e terminar, com aquele colorido único. Sentir o sal do mar queimando minha pele e os meus lábios. Beijar e dizer que amo. Se não houver eco, a gente junta os cacos do coração e continua a vida. 

Quero um 2024 assim, merecer os novos 365 dias que irei ganhar. Sorver cada segundo, sem economizar nos afetos, nem na esperança. Deixo o cinza do passado junto com as roupas que não me cabem mais. Sou outra. Meu casulo se abriu.