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Quinze minutos de bicicleta

Tem horas que a gente precisa dividir a dor em pequenos pedaços, para poder enfrentar. Tive essa lição...

Tem horas que a gente precisa dividir a dor em pequenos pedaços, para poder enfrentar. Tive essa lição no meu recente hábito de ir à academia. 

O instrutor me recomendou uma série de exercícios para as pernas, terminando com esteira e bicicleta. Era domingo, mas eu não queria arregar e fazer feio logo no meu primeiro dia. Fiz todos os exercícios pedidos e pensei que a bicicleta seria super tranquilo. O que são 15 minutos? Pelo menos, no celular, esse tempo corre muito veloz. A gente nem percebe.

O que eu não sabia era que o peso dos pedais era grande. Comecei e logo na quarta pedalada comecei a sentir minha coxa esquentando. Fiquei mais ofegante que o normal, mas continuei. O cronômetro digital demorou séculos para sair do primeiro minuto. Quando chegou no terceiro, eu já estava com o coração muito acelerado e suando horrores. Decidi parar um pouco porque fiquei tonta e com vontade de vomitar. 

Dali a um minuto, recomecei e fui pedalando até onde aguentei. Era um minuto e meio, o meu máximo. Racionalmente, dividi os 12 minutos restantes em trechos desse tempo. Devagarinho, fui me adaptando e, por fim, consegui concluir os longos quinze minutos que encerrariam o meu primeiro treino em dois anos. 

Pode parecer ridículo que uma pessoa de 40 anos não consiga pedalar 15 minutos, mas é isso que o sedentarismo de anos faz com a gente. Eu não quero perder essa batalha. Quero ser saudável e viver uma vida dentro da normalidade. 

Para além dos treinos, na vida da gente, muitas vezes é assim também. É necessário dividir as lutas em pequenos pedaços. O recomeço em uma nova profissão, após anos em uma que não nos satisfaz deve ser feito devagar, passo a passo. Arrumar a bagunça de dias em uma casa desorganizada ou lavar aquela louça acumulada que a gente deixou para depois. Se reconstruir, depois de um coração partido.

De passo em passo, mesmo que eles sejam curtos, podemos chegar mais longe. É melhor do que exagerar e ficar lesionado. Parar no meio do caminho, pelo exagero de quem não calculou direito a rota, sai bem mais caro. 

Por isso, mesmo que a mudança seja minúscula, eu sigo no meu ritmo lento. Para continuar, pelo menos na academia, eu preciso ter paciência e me planejar. Me abraçar pensando que faço o que dá. Se essa semana, não conseguir ir as três vezes, posso bolar um plano para não falhar na semana seguinte. Mesmo que esse ano eu tenha lido apenas um livro, há a possibilidade de voltar a ler dez minutos diários e melhorar esse hábito. Sempre fui boa em roubar tempo. 

Posso ser menos afoita. Quem sabe assim, o caminho fique mais claro e plano. Devagar, se vai mais longe. Essa lição não é para o mundo, mas para mim.