Dias atrás eu estava em uma escola diferente. Lá, as crianças podiam fazer coisas que fazem em casa, de forma independente. Um garoto de três anos e meio estava fazendo suco de laranja. Por segurança, o espremedor era completamente manual, e ele precisava fazer muita força para espremer a laranja. Ele me pediu ajuda. Seguindo a filosofia da escola, eu só mostrei a ele como apertar laranja em diferentes lugares podia ajudar a extrair mais suco. Mas deixei o esforço e a alegria do sucesso com ele.
Quinze minutos depois, eu achei que a parte mais interessante da atividade havia terminado, quando ele bebeu o suco que espremeu. Lembrei o garoto de que ele ainda precisava lavar tudo o que usou. Para meu espanto, a etapa da atividade em que ele mais se envolveu, de maneira concentrada, com atenção a cada detalhe e sem interrupção, foi a lavagem do equipamento. Entre notar a altura da espuma quando ele encheu o espremedor com água e tirar cada gominho de laranja dos cantinhos onde eles ficaram presos, o menino passou mais meia hora profundamente dedicado à tarefa.
Nós muitas vezes não sabemos o que realmente importa às crianças. Uma vez, atendi uma mãe cujo filho se recusava a fazer as tarefas da escola. A queixa dela repetia a de muita gente: “Ele não para sentado”. Então, pensando nos milhares de executivos que usam mesas de trabalho altas, hoje com o nome chique de “standing desks”, sugeri o mesmo a ela. Era possível fazer a tarefa no balcão da cozinha, bem mais alto, onde ele podia ficar em pé, se mexer um pouco, e até caminhar enquanto pensava. Deu certo, as tarefas melhoraram bastante. Existe uma vantagem em assumir que nós não entendemos o que importa para as crianças. Se a gente aceitar de verdade que sabe muito pouco, podemos começar a aprender.
Uma vez, um aluno meu adolescente recusava-se a ficar em sala de aula. Então eu disse a ele que ele podia caminhar pela escola, e vir à sala de tempos em tempos. Ele se acalmou, e depois de algum tempo conseguia permanecer na sala por minutos de cada vez, depois por horas, e finalmente o dia todo. Outro garotinho, esse de quatro anos, costumava abrir a sala e sair correndo. A professora dele dizia que ele fugia muito. Conversamos e chegamos à conclusão de que “se ele está tentando fugir, é porque se sente preso”. Experimentamos abrir a porta para ele, e oferecer o passeio, em vez de esperar que ele se aproveitasse de uma distração. Funcionou. Depois de quatro passeios ele passou três horas seguidas na sala, e nos dias seguintes ficou bem com ainda menos interrupções.
Maria Montessori, uma brilhante educadora do século XX, dizia que precisamos aprender a “seguir a criança”. Às vezes isso é literal, mas na maior parte do tempo significa fazer uma pergunta: “Do que essa criança precisa?”. Vamos descobrir que na maior parte das vezes a necessidade da criança é muito simples, e que custa muito pouco atendê-la. Um grupo americano que trabalhava com a pedagogia de Maria Montessori dizia que as crianças precisam de “tempo para respirar e espaço para crescer”. Gosto de me perguntar, diante das crianças em minha vida, como o tempo e o espaço podem acontecer no lugar onde nós estamos. Muitas vezes essa pergunta se transforma em outra: “Se essa criança fosse livre, o que ela faria agora?”.
