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O Poder de Imaginar o Futuro

A incerteza e a capacidade de imaginar são a porta e o chão de nossa esperança. Cabe a nós devolver às crianças a capacidade de imaginar outros mundos

Tudo o que existe hoje precisou ser imaginado.

Os sonetos de Shakespeare, as pirâmides do Egito e os megashows de Taylor Swift são produtos de nossa imaginação, mas o saneamento básico, os latifúndios e os juros do cartão de crédito também são. As coisas não precisam ser como são. Cadeiras poderiam ter três pernas, e as calçadas poderiam ser mais largas que as ruas.

Todo mundo diz que estamos em um momento decisivo da história. Dos acadêmicos que estudam mudanças climáticas, passando pelos jornais e chegando aos motoristas de aplicativo, sabemos que as coisas serão diferentes, mas não sabemos como.

Rebecca Solnit, jornalista britânica autora de “Hope in the Dark”, diz que não saber como será o futuro é um motivo para ter esperança. Ela escreve:

“A esperança reside na premissa de que não sabemos o que acontecerá e que, na vastidão da incerteza, há espaço para agir. Ao reconhecer a incerteza, você reconhece que pode influenciar os resultados…”

Solnit também destaca:

“As pessoas sempre foram boas em imaginar o fim do mundo, que é muito mais fácil de visualizar do que os estranhos caminhos tortuosos da mudança em um mundo sem fim.”

Por outro lado, embora sejam minoria, há pessoas imaginando futuros melhores o tempo todo.

Gandhi fez sua marcha do sal e levou a Índia à independência. Wangari Maathai começou o cinturão verde que está salvando a África da desertificação. Os povos originários do Brasil transformaram a Amazônia em uma floresta muito fértil cinco mil anos atrás. Sempre há pessoas imaginando futuros melhores.

Em uma escala muito menor, mas com enorme importância, vimos o Movimento Desconecta, que contribuiu para a eliminação dos celulares nas escolas brasileiras, e vimos na Inglaterra a iniciativa Play Out, que bloqueia a passagem de carros por ruas residenciais algumas horas por semana, para que as crianças brinquem do lado de fora.

Se falamos de futuro, esperança e imaginação, precisamos falar das crianças. Estudos têm descoberto que as crianças estão imaginando menos hoje do que no passado.

As telas têm a ver com isso, assim como a redução do tempo ao ar livre, dos espaços para brincar, do número de crianças que vivem juntas e do tempo que elas passam interagindo umas com as outras. A educação cada vez mais estruturada, voltada a resultados mensuráveis em testes padronizados também tem um papel crucial na redução da imaginação.

O problema é que sem imaginação nós não vamos longe. William Kamkwamba, retratado em O Menino que Descobriu o Vento, só conseguiu trazer eletrecidade ao seu povoado porque teve adultos e colegas que o apoiaram e uma biblioteca pequena à disposição. Mas também, só conseguiu o que conseguiu porque não foi obrigado a passar todo o seu dia entre lições de casa estruturadas, vídeos curtos verticais e sequências de aulas intermináveis.

As portas do futuro não estão fechadas. Ao contrário, a incerteza do presente é a chave que precisamos para abrir os portões e criar o amanhã que imaginamos. Só precisamos ser capazes de imaginá-lo e de oferecer às crianças as ferramentas para imaginar mais e transformá-lo mais ainda.

Crianças não precisam de muito para imaginar. Na verdade, o “muito” pode ser justamente o obstáculo. O tédio é essencial. Ir a uma praça e deixar a criança livre com outras como ela, para criar novas brincadeiras, é um caminho. Ensinar uma receita e permitir que ela a modifique é outro.

Na escola, nem todas as tarefas precisam ter um “certo” e um “errado”. Mesmo em Geografia é possível criar mapas de lugares que não existem, com marcas de relevo, escala e vegetação. Em Matemática é possível criar problemas, e não só encontrar soluções. Fazer perguntas pode nos levar mais longe do que decorar respostas.

Com muito esforço e um pouco de sorte, pode ser que nossas crianças voltem a imaginar mais. Elas não são as herdeiras do mundo, mas as donas de um planeta que nós pegamos emprestado. Um dia vão receber o mundo de volta, e precisam de uma imaginação pronta e afiada, para escolher o que fazer com ele.