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O Combu não foi passeio, foi travessia

Eu sabia que Belém me marcaria pela comida, mas eu não imaginava que seria atravessada, antes de tudo,...
Foto: Macio Ferreira/Divulgacão Rota Combu

Eu sabia que Belém me marcaria pela comida, mas eu não imaginava que seria atravessada, antes de tudo, por uma ilha. O Combu foi uma das experiências mais bonitas que eu já vivi. E talvez o mais importante seja justamente entender que eu só consegui viver aquilo da forma que vivi porque estava acompanhada de alguém dali. Uma guia nativa, simples, generosa, cheia de histórias e memórias que não se aprendem em roteiro turístico.

Porque o Combu não se visita apenas olhando. O Combu se escuta. A travessia de barco, o rio imenso, o silêncio entre as árvores, o cheiro da mata úmida, a vida acontecendo de um jeito completamente diferente do que estou acostumada. Tudo ali parecia me desacelerar aos poucos e então vieram os encontros.

Conheci a Silva, das biojoias, transformando elementos da floresta em arte carregada de significado. Conheci dona Elza e talvez seja impossível falar do Combu sem falar dela. Dona Elza me deu banho de cheiro, rezou por mim, me benzeu, me acolheu e cuidou de mim com uma delicadeza difícil de descrever. Saí de lá cheia de cheiros. Cheiro de erva, de rio, de paz, de pertencimento. Era como se aquele cuidado carregasse gerações. Conhecemos seu neto, o Boto, uma criança criada no rio, sem medo da correnteza, vivendo uma liberdade que parece quase impossível para quem vem da cidade.

Também entendi a força da andiroba. Tudo nasce dela. O óleo, o cuidado, a proteção, a medicina natural, o sustento. No Combu, nada parece existir separado da natureza. Existe um respeito profundo pelo que a floresta oferece e pelo equilíbrio daquele ecossistema. E talvez tenha sido isso que mais me tocou.

O Combu não tenta impressionar. Ele simplesmente é. Sem excesso, sem espetáculo, sem precisar provar nada. Brinquei, depois dessa experiência, que Belém teria que se esforçar muito para me surpreender. Porque o Combu me desmontou primeiro, mas não de um jeito triste. Me desmontou para reorganizar. Saí de lá mais leve. Mais silenciosa por dentro. Como se o rio tivesse levado embora um peso que eu nem sabia que estava carregando. Sem querer soar clichê, o Combu me trouxe paz. E algumas experiências são tão profundas que deixam de ser apenas lembrança: elas viram parte da gente.