Certa vez, conversando com um grupo de mães de crianças pequenas, ouvi a seguinte afirmação: “Ah, eu não dou conta de brincar com meus filhos o dia inteiro. Por isso, eu ligo sim a televisão.” Aquilo me chamou atenção pela dicotomia implícita: ou total disponibilidade materna, ou televisão.
Na época, eu tinha apenas um filho e, sendo uma mãe expatriada, sem rede de apoio, minha disponibilidade era limitada pelas exigências concretas da vida. Eu precisava cozinhar, limpar, lavar, resolver — cumprir as inúmeras tarefas que fazem parte do cuidado de uma criança e da manutenção de uma casa. Ainda assim, sempre me pareceu que havia uma solução muito mais simples e básica: meu filho poderia brincar de forma livre e autônoma enquanto eu fazia o que precisava ser feito.
De lá para cá, se passaram oito anos. Tive mais dois filhos, e aquilo que antes eu tomava como simples e óbvio hoje se mostra quase revolucionário. Não apenas em relação à televisão, mas diante da popularização e da acessibilidade dos mais variados dispositivos eletrônicos, a sociedade moderna parece ter esquecido que crianças podem, sabem e precisam brincar.
Pais — muitas vezes esgotados pelo acúmulo de tarefas e pela ausência de uma rede de apoio — passam a enxergar as telas como uma forma de substituir presença. Com isso, qualquer conversa sobre limitar seu uso esbarra numa objeção legítima: a impossibilidade de estar sempre disponível.
E veja bem: falar em limitar o uso não é o mesmo que falar em banir completamente as telas. O uso moderado pode, sim, fazer parte de uma rotina saudável na infância. Mas é impossível discutir limites sem falar sobre o que entra no lugar. E o que entra no lugar é algo básico, simples, quase primitivo. Algo que não exige mais planejamento nem maior disponibilidade por parte dos pais, porque é justamente aquilo para o qual a criança já vem “programada de fábrica”: brincar.
Brincar livre não é atividade dirigida, nem brincadeira “com propósito” definido por adultos. É a criança que decide o quê, como, por quanto tempo e com o que brincar. É o chão da sala que vira oceano, o lençol que vira cabana, a caixa que vira mundo.
Nesse espaço, a criança experimenta autonomia, cria narrativas próprias, elabora emoções e aprende a sustentar o tédio — habilidade raríssima numa cultura que oferece estímulo constante.
Quando o brincar livre ocupa lugar central na rotina, as telas deixam de ser concorrentes. Elas passam a ser apenas uma das possibilidades, não a única fonte de prazer, distração ou regulação emocional. A criança que brinca aprende a se engajar profundamente, a resolver conflitos simbólicos, a persistir. Tudo isso constrói uma relação mais saudável com o tempo, com o corpo e com a atenção, exatamente os aspectos mais afetados pelo uso excessivo de telas.
Pesquisas indicam que, nas últimas décadas, as crianças tiveram uma redução drástica do tempo de brincadeira autodirigida, substituída por atividades excessivamente estruturadas e pelo uso de telas. Essa mudança vem sendo associada ao aumento de ansiedade, depressão e dificuldades de atenção em crianças e adolescentes — uma relação amplamente discutida no livro A Geração Ansiosa, do psicólogo social Jonathan Haidt, que aponta como a perda do brincar livre e da autonomia na infância impacta não apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também a saúde emocional.
Na minha experiência trabalhando com pais, percebo que o maior desafio não é a falta de brinquedos ou de ideias, mas o fato de que o brincar livre exige confiança. Confiança de que a criança é capaz de criar, de se frustrar, de se reorganizar sem que a gente intervenha o tempo todo. Exige que toleremos a bagunça, o barulho, o imprevisível. Em outras palavras, exige que abramos mão de um certo controle — o mesmo controle que muitas vezes buscamos nas telas, quando elas parecem manter tudo “sob ordem”. Uma sensação, no entanto, ilusória: o uso excessivo de telas frequentemente compromete a regulação emocional da criança, diminui sua tolerância à frustração e aumenta seu nível de agitação.
O brincar também envolve riscos. Riscos calculados, cotidianos, necessários. Subir, cair, errar, testar limites do próprio corpo e do mundo. Ao tentar eliminar qualquer possibilidade de risco, acabamos empobrecendo a experiência infantil e transferindo para as telas uma falsa promessa de segurança. Um joelho ralado, um tombo, uma frustração vivida no brincar ensinam muito sobre autonomia, autocuidado e resiliência. Afinal, o que seria mais prejudicial à criança: um joelho ralado ou uma infância tolhida?
Perceba que o que eu sugiro aqui não é complicado. Não estou falando para que você pause suas responsabilidades para brincar junto da criança. Essa é uma outra conversa. A própria ideia de que adultos precisam brincar com crianças, da forma como entendemos hoje, é relativamente recente. Durante a maior parte da história humana — especialmente entre povos caçadores-coletores — as crianças brincavam enquanto os adultos faziam o que precisava ser feito. Não havia uma separação rígida entre “tempo de adulto” e “tempo de criança”, nem a expectativa de entretenimento constante. Havia coexistência.
As crianças circulavam, observavam, imitavam, criavam seus próprios jogos com o que estava disponível, enquanto a vida acontecia ao redor. O brincar não dependia da atenção exclusiva de um adulto, mas da liberdade de estar no mundo. Foi nesse contexto que a autonomia, a criatividade e a autorregulação se desenvolveram por gerações, não como exceção, mas como regra.
O que eu sempre gosto de lembrar é que brincar é o trabalho dos meus filhos — não o meu. Isso não significa que eu não esteja disponível para eles. Eu estou ali, acessível; eles podem me chamar, pedir ajuda, dividir algo. Eu observo, intervenho quando necessário, mas não fico gerenciando o brincar nem mediando todos os conflitos que surgem naturalmente entre eles. Tampouco os condiciono à minha aprovação constante ou a feedbacks contínuos.
Temos muitos momentos de conexão ao longo do dia: dançamos juntos, cozinhamos juntos, lemos livros. Mas o brincar é deles. São eles que exploram os inúmeros mundos que criam entre as paredes da nossa casa, enquanto eu sou apenas a âncora para a realidade à qual sempre podem retornar.
Talvez o que nos falte hoje não seja mais presença ativa, mas mais confiança nessa coexistência simples: adultos vivendo suas responsabilidades, crianças vivendo a infância, lado a lado. E, assim, limitar telas passa a ser menos sobre apertar o botão de desligar e mais sobre o espaço que oferecemos para a vida acontecer fora delas.
No fim, talvez a pergunta não seja “quanto tempo de tela meu filho pode ter?”, mas “quanto tempo de brincar livre ele tem tido?”. A resposta a essa segunda pergunta costuma resolver, com muito mais gentileza, a primeira.
