E se você tivesse como escolher qual o último sabor que provaria, antes de morrer e virar pó? Fiquei pensando sobre isso, ao ler uma notícia sobre pessoas que estavam recebendo cuidados paliativos em unidades de saúde. Alguns pacientes pediram para dar um tempo das comidas servidas no hospital, como últimos pedidos em vida. Um deles quis comer um doce de leite de tablete; outro, carne de porco e um bolo de chocolate.
Perguntei para alguns amigos e se descortinaram muitos sabores, alguns que talvez seriam impraticáveis para o ambiente hospitalar ou de alguém em estado terminal.
Na lista de pedidos, além de sobremesa de chocolate, estavam macarronada – a cearense, a tradicional dos imigrantes italianos e uma com molho branco, bacon e camarão – baião de dois com queijo, bolo, café, vinho branco e mousse.
Outro amigo falou que comeria algo com bode ou carneiro. Teve também quem preferisse um super sanduíche mega gorduroso, com carne bem suculenta, coração de frango, vários queijos, molho bbq e batata palha. Uma bomba que apressaria o fim iminente, com certeza.
Apesar do que falam sobre a falta de sabor das comidas no ambiente hospitalar, minha experiência com comida de hospital foi bem satisfatória.
Quando criança, em São Paulo, minha avó precisou ser internada para colocar um marca-passo. Lembro de ter ido visitá-la e comer um pouco da sua gelatina. Foi muito bom, porque eu amo gelatina. E ainda era de morango, a minha preferida.
Depois, quando fui hospitalizada para as cesáreas dos meus filhos, aprendi a comer mingau de Neston. Disseram que ajudaria a produzir leite. Eu gostei tanto, que comecei a tomar de vez em quando em casa e isso me atrapalhou a perder os quilos extras da gestação. Era delicioso.
Sou uma pessoa que, em geral, gosta bastante de comer, apesar do sobrepeso. Penso que tenho todo o tempo do mundo. Tenho dificuldades de lidar com a minha finitude. Não fico refletindo sobre a morte com frequência.
Entretanto, meu apetite some diante de situações problemáticas. Então, desenganada pelos médicos, talvez eu nem quisesse mais comer. Em vários momentos decisivos, eu preferi deixar a comida de lado. Mas passou e eu voltei à minha vida de comer por prazer, na maioria das vezes.
Espero que nenhuma doença terminal apareça tão cedo. Eu não sei qual seria a minha reação diante da péssima notícia de que teria apenas alguns dias ou meses pela frente. Muito provavelmente, eu estancaria imóvel, chorando até acabar as lágrimas ou tomaria várias decisões precipitadas, já que não teria mais tanto tempo para me arrepender. A comida ia ficar em segundo plano.
Teria outros prazeres para resolver, como tomar meu último banho de mar, me despedir de todo mundo que fez diferença na minha vida, para o bem ou para o mal. Iria distribuir alguns beijos e abraços e uns bons tapas e palavrões também.
E você, o que comeria, se não tivesse mais tempo?
