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Espere um Pouco – É urgente

A pressa dos adultos atropela a urgência das crianças
Foto: reprodução

Thiago tinha dois anos e meio e me viu pendurando paninhos lavados após uma atividade de artes. Veio até mim e pegou um para pendurar em um varal de chão à minha frente.

Ele precisava levantar os braços para alcançar o varal, e o pano caiu algumas vezes. Em outras, ele abria o prendedor, encaixava no paninho, aí não soltava o prendedor e achava estranho que ele não tivesse ficado preso ao pano.

Thiago passou mais de vinte minutos indo e vindo entre o varal e a bacia cheia de paninhos lavados. O plano era que ele estivesse em sala de aula, mas tratava-se de uma escola Montessori, onde a educação é compreendida como um auxílio ao desenvolvimento da criança, e esse tipo de atividade é incentivado.

Nos vinte minutos de atividade pendurando panos, Thiago trabalhou o movimento de pinça necessário à escrita, mais do que se tivesse feito várias atividades de sala de aula.

Além disso, desenvolveu sua atenção todas às vezes em que precisava pendurar o pano exatamente na metade, para ele não cair de um lado nem do outro. Também ficou um pouquinho mais independente, já que agora sabe fazer algo prático que não dominava antes.

Em seu esforço, Thiago trabalhou algumas virtudes de caráter. Por exemplo, a persistência diante de dificuldades, a capacidade de buscar soluções para problemas e a paciência, já que a tarefa era longa e repetitiva.

De minha parte, a única virtude trabalhada foi a paciência.

Eu teria terminado em um minuto e meio o que Thiago levou vinte e cinco minutos para fazer. Nesse intervalo, fiquei sob o sol, ao lado dele, segurando a bacia, porque ele deixou claro que não queria continuar sem mim, mas não queria minha ajuda.

Sem dúvidas, eu tinha outras coisas para fazer e tinha pressa. A paciência só é possível quando temos pressa. Paciência sem pressa é só descanso, e não conta. Eu queria sair do Sol e resolver minhas próximas tarefas. Ocorre que, entre nós dois, Thiago tinha mais urgências do que eu.

O cérebro de Thiago, como o de qualquer criança de dois anos, produzia até um milhão de novas conexões por segundo. O dado é do Centro de Harvard para a Criança em Desenvolvimento.

Esse índice assombroso quer dizer exatamente o que parece: as crianças estão construindo muito de seus cérebros a cada instante. Quando Thiago pendurou nossos paninhos, fazia mais do que pendurar paninhos.

Para mim, pendurar os panos tinha a urgência de mais uma tarefa. Para ele, a urgência era outra: tratava-se de construir o ser humano que ele talvez seja pelo resto da vida. Alguém persistente, paciente, esforçado e atento.

A minha presença ali também participava dessa construção. Ele teve a oportunidade de notar que, pelo menos em alguns momentos, o mundo é gentil com ele, e ele pode ficar seguro, tranquilo e se desafiar, porque o mundo não vai ralhar a cada erro, e ele não vai perder suas chances se falhar uma ou duas vezes. 

A uma taxa de um milhão de conexões por segundo, ele teve um bilhão e quinhentos milhões de chances de construir uma sinapse para cada um desses enriquecimentos de sua personalidade. Se eu tivesse apressado tudo, teria roubado Thiago um bilhão e quinhentos milhões de vezes, em menos de meia hora.

Quando esperamos, temos a impressão de que não estamos fazendo nada, mas ao esperar uma criança, damos a ela a oportunidade de construir um ser humano melhor, um milhão de vezes por segundo. Esperar as crianças é urgente.

Para saber mais sobre o cérebro das crianças

O Centro para a Criança em Desenvolvimento da Universidade de Harvard é um repositório de artigos, apostilas, dicas práticas e orientações de políticas públicas para a infância.

Inclui recursos sobre arquitetura cerebral, estresse tóxico, bem-estar na infância e na vida adulta, períodos críticos do desenvolvimento, funções executivas do cérebro e a criação de bons ambientes de desenvolvimento.

Tudo disponível de graça, com alto nível de embasamento científico e linguagem acessível. Muito já está traduzido, e você pode usar tradutores virtuais para ler o restante. Vale a pena a visita em developingchild.harvard.edu