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Carta para o avô espanhol

Vô Pedro Luiz, Eu não tive a chance de te conhecer pessoalmente. Sempre carreguei esse apagamento comigo. A...
A gravura experimental em azulejo é obra do artista plástico cearense João Paulo José da Silva. No Instagram, ele publica no perfil @jp.artesubjetiva

Vô Pedro Luiz,

Eu não tive a chance de te conhecer pessoalmente. Sempre carreguei esse apagamento comigo. A curiosidade foi crescendo conforme eu ficava mais velha. No entanto, as pessoas ao meu redor não descreviam muita coisa.

Quando eu perguntava para o meu pai, no caso, o seu ex-genro, ele se limitava a dizer que o senhor era muito trabalhador. Por isso, conseguiu construir tantas casas, ter carro, telefone, televisão e uma vida confortável em São Paulo.

Esse ritmo frenético de trabalho, assim como o esforço físico, talvez tenham custado a sua saúde, porque sua profissão de azulejista te fez inalar muito pó de cimento e adquirir uma bronquite crônica que te levou embora cedo, aos 60 anos.

Meu tio Edison, seu filho, falou da sua paixão por futebol, você era corintiano. Outra característica marcante era que sempre gostava de presentear os filhos com brinquedos. Minha mãe tinha uma boneca linda, a Beijoca, presente seu e eu ganhei a minha, do meu tio, quando completei seis anos.

Ele me contou também que o senhor chegou pela Bahia, trabalhou assentando pedras em Salvador, depois seguiu para o Chile, voltou por São Paulo e pretendia regressar para a Espanha. Estava com saudades da família. Mas minha vó apareceu e você mudou os planos para se casar com ela.

Eu sempre me perguntei se, ao atravessar o Atlântico, você sabia o que era a paixão. Teria deixado alguma espanhola à sua espera? Ficava inventando roteiros românticos e dramáticos. Porque eu, aos 29, que era a sua idade ao chegar ao Brasil, já era mãe e casada. Como chegou a ser azulejista? Teria trabalhado com outra coisa? Se dava bem com a família da Espanha? Eram tantas perguntas…

Minha vó, eu não me recordo do que tenha me contado. Ela ficou deprimida depois que você se foi. A ponto de passar anos sem sair de casa e depois, a memória foi sumindo, pouco a pouco. Ela partiu muitas décadas depois de você, em 2011.

Em 1984, quando você foi embora dessa Terra, eu era um bebê. A gente se conheceu, embora eu não lembre. Passei a vida olhando a foto do meu batizado, que o senhor era meu padrinho. Eu tinha quatro meses apenas, mas como meu tio falava, deu tempo de se apaixonar por mim, sua primeira neta. Me deu um terço rosa de presente e um apelido impublicável, que eu não vou me expor aqui desse jeito no jornal.

Minha mãe intuiu a sua morte com um sonho premonitório. E numa madrugada de fevereiro, poucos dias depois dessa foto do batizado e do seu aniversário de 60 anos, te faltou o ar e você se foi.

Os anos se passaram e eu, olhando as suas poucas fotos, percebi seus olhos claros, a pele bronzeada, a baixa estatura, os pés e o nariz grandes, o rosto afilado. Não parecia um europeu convencional. De onde viriam esses traços? Eu sequer sabia qual era a sua cidade, a região da Espanha em que o senhor nasceu, muito menos porque veio para o Brasil ou se voltou para sua terra natal alguma vez para visitar seus parentes.

A primeira investida para descobrir alguma coisa a mais sobre a sua trajetória, eu fiz pouco depois que me formei em jornalismo, em 2005. Em uma viagem rápida para São Paulo, entrevistei o seu único amigo vivo, também espanhol, seu Alfredo. Com ele, soube de qual porto vocês viajaram, o de Vigo, qual era a sua região, Pontevedra, na Galícia e que tinha trabalhado na construção de Brasília. Meu avô Pedro Luiz, era um dos muitos candangos que construíram a capital federal… Me surpreendi, nunca ninguém tinha me dito.

Nessa  época, eu tinha 21 anos. Fui perguntar sobre o senhor por curiosidade e porque a minha vida tinha dado uma mudada e eu pensava que eu poderia aproveitar meu curso de espanhol para ir conhecer o país e fazer o Caminho de Santiago. E a sua cidade estava no roteiro desse famoso roteiro peregrino.

Porém, minha vida mudou de tal forma que essas ideias se tornaram totalmente inviáveis. E eu segui curiosa e sem ter mais ninguém para perguntar sobre sua vida. Como eu não sabia de quase nada, ficava me perguntando se o senhor no convívio com a mulher e os filhos era ausente, calado demais, bravo… Minha mãe sempre muda o assunto, quando eu questiono. Parece que não gosta de lembrar.

Em uma tarde tediosa e quente de fevereiro, em 2016, quando eu não trabalhava mais com jornalismo e me dividia entre fazer comida, amamentar e fazer faxina, me deu uma vontade louca de colocar o seu nome no google e ver o que eu poderia descobrir.

Essa busca alucinante me tomou a tarde e boa parte da noite. Um link levando ao outro, eu resgatei o seu passaporte, sua identidade e descobri o seu navio, que aportou na Bahia em 1953. Descobri também que tinha se hospedado em uma pensão na Vila Mariana, em São Paulo.

Entre os textos que achei no google, procurando pela cidade e o sobrenome, encontrei Por Amor, um romance escrito por uma brasileira, que se passava na mesma região em que você nasceu. Andrés, mesmo nome do meu tio falecido bebê, era o patriarca. Além disso, a autora tinha um sobrenome parecido: David. Fiquei cabreira, senti os sinais.

Entrei em contato com a autora, Goreth Kling, e descobri que ela conhecia a parte da sua  família que ficou na Espanha. A sua irmã, Maria Doviso, que recebeu cartas e não sabia ler em português, só alisava o papel, dizendo do irmão que foi para o Brasil e nunca mais deu notícias. Ela sabia que você tinha tido dois filhos, Edna e Edison, porque o meu tio escreveu para ela.

Por meio da Goreth, vi a casa de pedra onde você nasceu, em Carracedo, na Galícia, e soube do dom para o desenho dessa parte da família, porque tem vários artistas e designers. O marido dela, Eduardo David, é seu parente. O livro Por Amor foi escrito em homenagem à mãe dele.

Com a Goreth, eu soube que você vem de uma longa linhagem de homens que se chamavam Pedro Luiz. Eu sempre achei Pedro um nome lindo, mas como meu pai também tem esse nome, não achei legal colocar com Neto no final. Meu filho homem se chama João Nuno, seu bisneto. Luiza coloquei por outra razão, mas acabou homenageando você sem querer. A nossa família Garcia continua pela minha descendência e do meu irmão. Por ele, tem o bisneto Ravi Miguel. O Doviso acabou nos seus filhos, que não repassaram para os descendentes.

Vô, eu continuo sem saber muita coisa sobre o senhor. Não sei que heranças físicas eu tenho que se relacionem contigo. Já o meu irmão é a sua cópia. Pude atestar nas fotos do seu casamento com a vó Francisca. Sorte grande, a sua. Minha vó era muito linda, aos 35 anos, quando vocês se casaram. Eu me pareço mais com ela, modéstia à parte. Próximo dia 7, você faria 100 anos, meu tio me contou. Por isso, essa carta.

Quem sabe um dia eu descubra mais alguma coisa ou possa pisar no chão que sustentou os seus pés em sua infância. Ou posso inventar uma história sobre você. Será se eu consigo?