Querido professor,
Faz tantos anos que a gente não se fala. A vida seguiu seu curso e eu quase desisti de tudo. Das minhas pesquisas, do jornalismo, da escrita. Fiquei sem rumo, “bestando” um bom tempo. Nesse meu tempo andando em círculos, te encontrei quando eu estava indo comprar um sapato no Centro. Eu, dentro da Sapataria Nova, perto da Praça do Ferreira e você caminhando pela rua. De dentro da loja, te avistei tão rápido. Não deu tempo de parar tudo para correr para o reencontro. E você passou.
No mesmo ano, 2019, fui na Bienal com meu menino pequeno, minha mãe, o sobrinho e a vó dele. Naquele furdunço de gente, rodei, vi umas homenagens, consegui fugir um pouco daquela rotina exaustiva de mãe. Senti um respiro, um novo ar, em meio a aquelas programações todas. Ali, era o meu ambiente e eu andava tão longe de tudo. Parecia um reencontro comigo. A de antes.
Tirei fotos, peguei marcadores e fiquei olhando tudo muito atentamente. Muita gente que eu conhecia de vista. Uns livros lindos que eu namorava faz tempo. Acabei não levando nada, só trocando alguns. Na saída, já dentro do Uber para voltar pra casa, eu te avistei de novo, de longe. Dessa vez, eu acenei, acho que você me viu. Ficou olhando, assim como eu. E eu fui embora. Jurava que poderia te ver de novo. Me enganei.
Agora, você foi embora de vez. E eu passei essa semana toda falando com Deus, pedindo que você pudesse se recuperar para que esse encontro acontecesse. Para que eu pudesse te contar que estava pra lançar um livro. Te agradecer de alguma forma por ter me colocado nesse caminho. Sim, porque foi você quem me apresentou todo esse universo das memórias, dos saberes da cultura popular.
Quando eu entrei na faculdade, nunca na vida tinha entrado num museu, nem nessas coisas mais culturais. Era uma matuta, uma índia de Caucaia, como você costumava brincar.
Na primeira cadeira contigo, aquela do segundo semestre, me apaixonei pelos cordéis. Você me apresentou a eles e me deu logo uma coleção organizada por ti, que guardo com carinho até hoje. Aquela mini monografia sobre os cordéis que falavam do ataque contra as Torres Gêmeas foi o início de tudo. Acho que naquele mesmo ano, comecei a participar do seu Grupo de Estudos de Cultura Popular, e viajamos eu e um monte de gente da Comunicação para o Cariri.
Lembro de tantos detalhes. Das praças, da comida, da casa do Patativa, em Assaré, do Crato, Juazeiro, de tanta coisa linda, em Nova Olinda. E da passada em Várzea Alegre, na casa da mãe do Magela. Minha primeira viagem de adulta estudante.
Na monografia, você me orientou a pesquisar os Tapeba, um dos povos originários da minha Caucaia, onde moro até hoje, sobre a oralidade no repasse das lendas. Eu, sem noção que era, ia sozinha desbravar os trilhos desertos, confiando em desconhecidos. Uma vez, você e o Francisco foram comigo e me alertaram desses riscos. Para minha sorte, nunca aconteceu nada.
Ainda hoje, quando passo em frente a aquele restaurante no caminho de Aquiraz, lembro daquela galinha caipira que a gente comeu. E depois, vocês me deixaram em casa, no Araturi. Tão longe. Quanta gentileza.
Lamento tanto não ter nenhuma foto desse tempo, daquela viagem. Nem da minha defesa atrapalhada que só durou cinco minutos. Eu, sempre muito tímida, travei e não consegui falar mais nada. Mesmo assim, tirei 10 e deu tudo certo.
E a expressão tão cearense “bonito pra chover”, que eu só entendi direito contigo? Lá em São Paulo, onde eu nasci, tempo chuvoso é feio. Eu não entendia a beleza de um céu carregado. Hoje, aprendi.
Naquele livro de ensaios, o Bonito pra Chover, tenho a tua letra, lembrança mais forte tua e que tenho revisto nos últimos dias.
Depois da sexta tentativa de engatar uma leitura, peguei o livro da Lygia Fagundes Telles, aquele de crônicas sobre a escrita. Logo a primeira falava da despedida de Clarice Lispector, sua amiga, no texto “Onde estivestes de noite”. O sol indo embora me deu o estalo pra essa carta, escrita aos garranchos, chorando.
Te agradeço, Gilmar, por tudo que você me ensinou. Nos livros e fora deles. Sem você, não tinha jornalista Kelly Garcia. Muito menos o livro Cidades Invisíveis. Gratidão demais.
*carta escrita dias após a partida do grande escritor e pesquisador Gilmar de Carvalho. Em 17 de abril de 2024, faz três anos do seu falecimento, vítima de covid-19.
