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Cadê as mãos que estavam aqui?

Em uma educação que privilegia o pensamento e a abstração, qual é o lugar das mãos da criança?

A melhor descrição do papel das mãos em nossas vidas foi feita pelo poeta Giuseppe Ghiaroni. Em um trecho do “Monólogo das Mãos”, recitado por Bibi Ferreira, escutamos:

“Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!
Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura; a arma que fere e o bisturi que salva.
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.”

As mãos fazem tudo por nós. Até anteontem, não havia robôs para nada, e apenas as mãos eram capazes de fazer tudo.

Talvez, por isso, não desperdiçássemos as mãos das crianças. Elas aprendiam a construir objetos de madeira, cavar, esculpir e costurar. Plantavam, reparavam e sabiam fazer curativos e comida.

Não eram apenas tempos bons; nessa época, as crianças também morriam muito, e a proteção das crianças veio junto com uma educação que despreza o uso de suas mãos.

Na medida em que colocamos as crianças em ambientes higiênicos e seguros, também fomos impedindo que usassem o corpo para qualquer coisa que não fosse gastar energia.

Jogamos o bebê fora com a água do banho. Foi importante proteger as crianças das doenças advindas da falta de higiene e saneamento, mas foi uma imensa perda que, ao mesmo tempo, tenhamos separado as crianças de seus corpos.

É curioso que alguns dos maiores proponentes históricos dos direitos da criança, como Loris Malaguzzi e Maria Montessori, também tenham sido ferozes defensores do uso das mãos na educação.

Maria Montessori chegou a dizer: “O movimento das mãos é essencial. Crianças pequenas demonstraram que o desenvolvimento da mente é estimulado pelo movimento das mãos. A mão é o instrumento da inteligência.”

Em que consiste quase todo o material usado na escolarização de nossas crianças?

Quase todos os dias, elas trabalham sobre o papel, usando instrumentos de escrita — quando muito, de desenho — e seus acessórios: borrachas, apontadores, réguas. Às vezes, tesouras. Por duzentos dias ao ano, pelo menos metade das horas ativas de nossas crianças gira ao redor do papel.

Para os que se importam com a educação, cabe a pergunta:

Em toda a Terra, não existe nada melhor? Madeira, barro, plantas, pedra, metal, tecido. Quantos são os materiais que as mãos de nossas crianças ignoram?

O cérebro humano aprende por meio de experiências no ambiente. Que dimensão de experiências é possível oferecer a partir de uma educação centrada no papel?

Atribui-se a Carlos Drummond de Andrade ter dito que “as maiores emoções, eu as vivi com uma caneta na mão”.
Ainda que seja verdade, quem mais pode dizer isso?

A maior parte da espécie humana viveu suas maiores emoções com outras coisas nas mãos, inclusive outros corpos humanos, ao abraçar quem se ama ou segurar um filho no colo.

Assim mesmo, na educação de nossas crianças, consideramos que as experiências com as mãos são secundárias na formação da inteligência e do caráter.

Com a ascensão do celular e do tablet, a dimensão da experiência com as mãos diminuiu mais um pouco, e nós permitimos isso.

Renunciando às mãos, abrimos mão também da imaginação, da resiliência e da construção do pensamento abstrato a partir da experiência concreta.

Não nos sobra muito, se não nos sobram as experiências com o corpo.

Sempre é tempo de mudar nossa forma de fazer educação. Malaguzzi, Montessori e dezenas de outros nos deram caminhos melhores. Resta-nos trilhá-los.