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Boom Tin: A trilha sonora de um corpo que aprendi a habitar

Pisquei e tenho 10 anos. Um elástico esticado na calçada. Preso nos meus joelhos de um lado. Do...

Pisquei e tenho 10 anos. Um elástico esticado na calçada. Preso nos meus joelhos de um lado. Do outro, os joelhos de uma amiga aos meus se conectam. Uma outra amiga pulava. Boom boom boom. Os garotos que assistiam, sentados em suas bicicletas, encarregavam-se da trilha sonora. Tin tin tin. Os efeitos mudavam de acordo com quem pulava. Era chegada a minha vez. Boom tin, boom tin, boom tin. Eu pulava toda faceira por sentir, naquelas onomatopeias, o que talvez fosse meu primeiro vislumbre da aprovação masculina sobre o meu corpo. Nem o boom da menina gorda, nem o tin da menina magra. O boom tin com o qual aqueles garotos sonorizavam os meus pulos me deixava saber que o meu corpo estava, para eles, na medida certa. Pisquei e tenho 12 anos. Além de crescer para cima, fui crescendo para os lados. Peitos e quadris. Bundas e coxas. Ouvi de um senhor sentado no banco da praça que Fernandinha, como todos me chamavam até então, não seria mais apropriado. De “dinha” eu não tinha nada. Era a revogação de um nome que tinha, até ali, feito parte da minha identidade. Ainda assim, senti que existia ali uma espécie de aprovação. Havia mais de mim a ser apreciado. Pisquei e tenho 14 anos. A barriga também cresceu. Os peitos estão marcados por estrias. Caminhos esbranquiçados que levam a lugar nenhum. “O que são esses arranhões?” quis saber um garoto pelo qual eu me interessava. Estrias, respondi sem maiores explicações. No silêncio que se seguia morava a resposta que eu sentia: essas são marcas de que meu corpo é grande demais. Essas são as tentativas da carne de conter um corpo que cresce desmedido. As medidas já não são proporcionais. A quê? Me pergunto. Às expectativas dos outros. Já não agrado. A filha da Miss perdia sua beleza. Certamente não seguiria os passos da mãe, a mulher mais bonita já vista naquela pequena cidade. Pisquei e tenho 16. Ouvi de uma prima distante, com um ar de tristeza, que eu tenho um rosto muito bonito. Como se fosse uma enorme pena que, sobre meu corpo, o mesmo não pudesse ser dito. Uma tia, ao sair para comprar meu presente de aniversário, explicou à vendedora da loja que trouxera uma delicada camisola como sugestão: “ela é uma jamanta. Nunca caberia.” Ela, por alguma razão, achou sensato me contar sobre esta troca. Recebi meu presente e agradeci — ciente, antes mesmo de abrir, de que, fosse o que fosse, teria o tamanho adequado para cobrir uma jamanta. Pisquei e tenho 18 anos. Já foram tantas piscadas até aqui. Outras tantas sequer articuladas. Cada uma delas é uma cratera na minha autoestima. O entendimento construído, tijolo por tijolo, de comentário desnecessário a conselho não solicitado, de que o meu corpo é grande demais para ser suficiente. Quanto mais espaço eu ocupava, mais evidente se tornava a minha invisibilidade. Passei a andar pela vida com um senso de não pertencimento até que, buscando me encontrar, mudo de país. Aqui nesse novo hemisfério, o meu não pertencer é por escolha. Quando se é estrangeira numa terra, não resta tempo nem espaço para ser estrangeira no próprio corpo. Longe do lugar onde eu nasci, eu precisei ser a minha própria casa e foi assim que, f inalmente, aprendi a me habitar por inteiro. A falar em muitas línguas para driblar a insegurança. A celebrar as diferenças que são atributos da minha latinidade. Bailei pelos meus vintes. Corri maratonas inteiras, mas nunca para longe de mim mesma. Pisquei e tenho 29, 33, 36. Veio um filho, depois outro e depois outro. Meu corpo, mais uma vez, cresceu. E pouco importou o olhar do outro. Se foi boom ou se foi tin o som dos meus pulos. Meu corpo expandiu, contraiu, expeliu, jorrou vida das suas entranhas — e depois encolheu, mas nunca mais se apequenou. Nunca mais buscou aprovação nos olhares externos. Nunca mais se conformou com a invisibilidade. Pisquei e tenho 40 anos. Tenho cultivado músculos, destreza e velocidade. A maturidade vem trazendo a deliciosa sensação de viver em paz comigo mesma. A ousadia de não agradar. Nem boom e nem tin — agora sou eu a única encarregada da minha trilha sonora.