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As coisas que fermentam na ausência

Vai fazer 4 anos que minha avó se foi. Eu estava grávida da minha filha mais nova. Morando...

Vai fazer 4 anos que minha avó se foi. Eu estava grávida da minha filha mais nova. Morando em outro país, não pude me despedir. Das tristezas que carrego na vida, a maior talvez seja que minha avó Alda nunca tenha conhecido minhas filhas.

Hoje, eu e minhas filhas sentamos naquela cozinha onde leite virava coalhada, virava queijo, ia no cuscuz ou era mexido com achocolatado e oferecido para uma fila de netos famintos. Só um tiquinho de achocolatado que era para render. E como rendia naquela cozinha. O achocolatado, o leite, a sopa, o feijão, o amor.

A casa que sempre foi tão dela e tão ela está diferente. O janelão de madeira onde sentei tantas vezes não está mais lá. Está tudo mais bonito, mais moderno. Reformado. Mas a mesa continua grande, farta, com quitutes enfileirados e paninhos que cobrem os sucos. O cheiro do café continua sendo abraço. Eu quase consigo vê-la, em pé, por trás de uma cadeira, braços fortes abanando, reclamando do calor. No olhar o prazer de quem vê sua gente comer, de quem sabe que alimentar é mais do que matar a fome. Eu ainda consigo sentir o amor que ela derramava tão livremente como leite em baldes.

Hoje eu comi coalhada. E eu não gosto de coalhada, mas essa é a mesma que minha avó fez antes de partir. Minha tia vem mantendo viva a mesma cultura de bactérias iniciada por ela, quase quatro anos atrás. Uma linhagem sendo preservada, passada de uma leva para outra.

A continuidade biológica das coisas. As pequenas partes de cada uma que dão origem à seguinte. No jogo americano sob minha xícara de coalhada e meu prato de cuscuz está escrito: família. E eu olho para minhas filhas, que vieram de tão longe para sentar à mesa de uma mulher que nunca conheceram, mas da qual são, inegavelmente, uma continuidade.

Eu não gosto de coalhada. Mas gosto dos rituais, dos lembretes de que algumas heranças não ficam apenas em fotografias e objetos. O amor continua fermentando mesmo diante da ausência. Naquela coalhada e naquela mesa não faltava ela. Pois em cada filha, neta e bisneta, e por toda aquela casa que foi e ainda é tão dela, lá estava ela. E sempre estará.