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Ao canto e encanto dos nossos canários-da-terra

Há quatro meses, todos os dias, cedo da manhã, venho observando a presença de um jovem canário cantar...
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Há quatro meses, todos os dias, cedo da manhã, venho observando a presença de um jovem canário cantar solitariamente, que ainda não tem a cor amarela definida. Ali, entre o estacionamento e o prédio histórico da Alece, ao atravessar a Avenida Pontes Vieira, vejo e curto o canto daquele jovem pássaro. Fora do seu habitat, canta no meio do trânsito diante da insensibilidade dos transeuntes, que parecem sempre apressados e angustiados entre a selva de pedra. Um canto, talvez em busca de outro da espécie ou de uma fêmea. Cedo, lá está ele sempre a cantar em uma das palmeiras ou fios. Por duas vezes, ao olhar e admirá-lo, fui surpreendido: um amigo parou o carro no sinal e falou: “O que você está olhando, poeta? Noutro dia, um ex-aluno, caminhando na calçada, chegou ao meu lado e saiu com essa: “Está vendo ETs, professor? Admirando o canto do canário. Você está vendo? Consegue ouvir o canto? Para a minha surpresa, ouvi dele: “Onde? Qual é o canário? Qual é o canto dele?”. Às vezes fico pensando: quantos canários peguei em Alçapão pelas bandas do velho Aracati? Quantos canários coloquei para brigar na rua Lauro Maia? E, por falar em canário: certa vez, conversando com o cantor e compositor Raimundo Fagner sobre a sua infância, por ali, na rua Artur Timóteo com a rua Lauro Maia, disse-me: “Eu criava canário e vivia com as gaiolas debaixo do braço. Eu ouvia o canário fogoso cantando e já desafiava o outro cara para a briga”. O adolescente Fagner já gostava de competição e apostava na rinha de canário do Patinhas, no bairro do Atapú, mas não escapou de ser enganado algumas vezes: “Nego me enrolou muito com canário, hein! Pintava pardal e me vendia como canário”. Em 1978, já famoso e morando no Rio de Janeiro, Raimundo mantinha admiração pelo canto e pelo hábito de criar canário-da-terra, colocando a gaiola de seu canário na parede do lado de fora da janela do seu apartamento. Entre uma conversa e outra nos rachas de futebol com artistas e jogadores profissionais, prometeu a Roberto Rivelino, o craque da seleção canarinho de 70, um bom canário de briga da Terra da Luz. Cumprindo a promessa, comprou um bom canário, colocou-o em um transporte (pequena gaiola), levando-o entre os pés no piso do avião. Problema: o canário começou a mexer-se, piar e cantar. Ao tentar acalmá-lo, por acidente, com os pés virou o transporte, abrindo a pequena gaiola, e o inusitado aconteceu, segundo Fagner: “O canário fugiu e começou a voar no avião. Naquele alvoroço, a aeromoça e os passageiros conseguiram aprendê-lo, felizmente”. Certa vez, Francis Vale foi acompanhar Fagner em um show de apresentação dos grandes artistas de uma gravadora. Fagner, ao chegar no hotel, logo retirou-se para descansar em seu apartamento. Francis, já tomado pela bebida, ficou no deck da piscina, identificando-se como o responsável pela recepção e estadia dos artistas. E a confusão se estabeleceu: Francis passou a jogar as malas dos artistas dentro da piscina. Ao ser informado da reclamação dos artistas e do transtorno, Fagner desceu ao saguão do hotel e ouviu Francis dizer em voz alta durante a confusão com artistas: “Não perturbem o meu canário no quarto, ele está descansando a voz para mais tarde”. Tudo isso aconteceu, no tempo dos pardais, “quando havia galos, noites e quintas”. E o nosso canário continua livre, cantando e encantando, agora, com o seu novo disco, “Raimundo bossa nova Fagner”, interpretando como sempre de forma singular os clássicos da Bossa Nova. Que maravilha a conscientização e a legislação que proíbe pprosão, venda e briga de canários. Viva a proliferação e liberdade dos canários. A Terra da Luz agradece.