Há 156 anos, no dia 31 de agosto, nascia Maria Montessori. Era uma criança difícil, com notas terríveis, que inventava estar doente para faltar à escola. Na última década do século XIX, a caminho de se tornar uma das primeiras médicas da Itália, foi convidada para colaborar na gestão de um hospital psiquiátrico.
Lá, observando as crianças, reconheceu que o maior sofrimento delas não era médico, mas pedagógico. Com o trabalho de Maria Montessori, as crianças abandonaram quase todos os seus sintomas e foram aprovadas com notas acima da média nos testes nacionais de educação da Itália.
Revoltada com o funcionamento da escola convencional, por dez anos não fez nenhuma fala pública e dedicou-se ao estudo. Aos trinta e sete anos, professora na Universidade de Roma, foi trabalhar com crianças do bairro mais pobre e violento da Itália. Era a segunda vez que escolhia trabalhar com crianças “ineducáveis”. O processo de alfabetização das crianças durou apenas seis semanas e chamou a atenção de toda a imprensa mais uma vez.
Com a morte de sua mãe em 1913, Montessori abandonou o cargo de professora na universidade e passou os quarenta anos seguintes viajando, preparando professores, construindo escolas, observando crianças e escrevendo suas descobertas em mais de vinte e quatro livros.
Foi perseguida por fascistas, nazistas, a caça às bruxas americana e por todos os países com regimes totalitários. No Brasil, nossa maior referência histórica nessa pedagogia, Celma Perry, foi perseguida pela ditadura militar e precisou exilar-se nos Estados Unidos, onde também se tornou referência, até sua morte, na quarta-feira, 26 de agosto.
Uma vez, descascando batatas para fazer nhoque, ouviu de seu neto a pergunta: “Vó, o que você fez da vida?”. E largou as batatas, lavou as mãos e respondeu: “Eu? Eu descobri a criança.” A obra de Maria Montessori vai além da escola. A concepção que temos de infância foi influenciada por ela, através de alunos seus, como Anna Freud e Jean Piaget, ou de organizações que ela influenciou diretamente ou colaborou para criar, como a UNESCO e a UNICEF. Ícones como Gabriel García Márquez (Nobel de Literatura) e Beyoncé foram alunos de escolas montessorianas, e devemos a alunos de escolas influenciadas por ela a existência do Google e da Wikipedia.
Os outros textos que escrevi nesta coluna contêm ideias de Maria Montessori. Hoje, encerro com uma frase de sua autoria, e uma cantiga de roda que me remete a seu legado.
Montessori disse: “Devemos ajudar a criança a agir por si mesma, a pensar por si mesma, a querer por si mesma. Essa é a tarefa daqueles que almejam servir o espírito.”
Ainda defendia: Essa é a última revolução. Será pacífica e libertará a criança tão profundamente que alterará toda a nossa realidade social.
Há uma ciranda de roda, em inglês, que diz:
Tem amor para você na roda,
Um amor que você pode entender,
Existe paz aqui na roda,
A não-violência é nosso plano,
Venha, entre na roda,
Todo mundo segurando as mãos!
Todo mundo segurando as mãos!
