A transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília, inaugurada em 21 de abril de 1960, não ocorreu por falta física de espaço. Fez parte de um projeto antigo de interiorização da capital, integração do território nacional e desenvolvimento do Centro-Oeste.
Havia razões geopolíticas e econômicas. O governo pretendia estimular a ocupação e o desenvolvimento do interior do país, historicamente menos povoado e economicamente menos desenvolvido que a faixa litorânea. Também havia argumentos estratégicos para que a capital estivesse distante do litoral e, consequentemente, menos vulnerável a eventuais ataques externos.
O Rio de Janeiro, por sua vez, concentrava intensa vida política, manifestações populares, movimentos sociais e uma imprensa atuante, todos próximos do poder central. A mudança para uma cidade planejada no interior inevitavelmente aumentou a distância física entre o centro das decisões nacionais e as grandes concentrações urbanas.
Brasília virou um Rio de Janeiro
Passados mais de 66 anos da transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília, o que se percebe é que os conflitos políticos também chegaram à cidade construída para abrigar o poder. Denúncias de corrupção, investigações envolvendo integrantes dos Poderes, tentativas de ruptura institucional, parlamentares acusados de irregularidades, dirigentes de órgãos públicos indicados politicamente e bilhões de reais distribuídos por meio de emendas fazem parte do noticiário nacional.
Ainda bem que existe a Polícia Federal, instituição fundamental no combate à corrupção e na investigação de crimes contra o patrimônio público. Brasília permanece constantemente na pauta dos brasileiros quando o assunto envolve denúncias e investigações sobre o poder.
Os taxistas da capital federal dizem ter se acostumado ao cotidiano das operações policiais e das crises políticas. Um deles resumiu assim: “A gente não vê dinheiro em Brasília, mas, quando abre os jornais na internet, saltam aos olhos os bilhões envolvidos nas denúncias.”
Da extrema direita à esquerda, todos aparecem nas investigações
É difícil para qualquer jornalista generalizar o crime, até porque nem todos são bandidos ou corruptos. O atual ambiente de Brasília, porém, transmite uma permanente sensação de crise. O país atravessa uma profunda transformação de sua identidade política. A internet ajudou a criar uma nova categoria de representantes públicos que chegam ao Congresso impulsionados, principalmente, pela presença nas redes sociais, muitas vezes sem uma trajetória anterior de serviços prestados às comunidades, cidades ou estados.
O Congresso Nacional está cheio de parlamentares denominados “influenciadores”, que destinam emendas, transformam embates políticos em conteúdo para as redes sociais e constroem sua atuação em torno da oposição permanente aos adversários. Brasília precisa recuperar a capacidade de diálogo entre os Poderes, fortalecer as instituições e devolver à política seu papel essencial: servir à sociedade.
