Da zona rural de Monsenhor Tabosa, no Ceará, ao topo do Everest. A trajetória do alpinista cearense Rosier Alexandre, primeiro nordestino a subir os chamados Sete Cumes, foi construída entre a extrema escassez na infância, o trabalho na roça e um projeto que começou a ser desenhado ainda quando ele era criança.
Em entrevista ao programa Roberto Moreira Entrevista, do Opinião CE, Rosier relembrou as dificuldades enfrentadas durante a infância e adolescência e como elas acabaram influenciando sua trajetória. Ele trabalhou na roça até os 16 anos e afirma que a experiência foi determinante para desenvolver a resistência necessária para os desafios que viriam anos depois. “Toda a dificuldade foi um alicerce para chegar no alto das montanhas.”
Desde criança, Rosier conta que tinha curiosidade em conhecer o mundo. A ideia surgiu depois de ouvir que a Terra era formada por diferentes continentes e países.
A descoberta despertou nele o desejo de viajar e conhecer outros lugares. Ainda menino, transformou a curiosidade em um objetivo. “Estabeleci um propósito: quando crescer, quero viajar o mundo inteiro e saber se ele está falando a verdade.” A entrevista completa está disponível no canal do YouTube do Opinião CE.
Livros de alpinismo despertaram o desafio
Já morando em Fortaleza, aos 28 anos, Rosier começou a ler livros sobre alpinismo. Entre as obras que despertaram seu interesse estava a história de Richard “Dick” Bass, primeiro homem a escalar os Sete Cumes. Bass concluiu o desafio em 30 de abril de 1985. Para Rosier, a história do alpinista serviu como inspiração para transformar o desejo de conhecer o mundo em um projeto relacionado às montanhas.
A partir da leitura, ele passou a considerar a possibilidade de viajar pelo mundo escalando os pontos mais altos de cada continente.
Em 2002, Rosier convocou a imprensa do Ceará para anunciar publicamente o desafio. Segundo ele, a dimensão do projeto chegou a assustá-lo inicialmente. A partir dali, começou uma preparação que envolvia não apenas treinamento físico, mas também planejamento financeiro, estudo das montanhas e preparação psicológica.
“A gente não escala uma montanha antes de ter chegado lá na cabeça”
Para Rosier, o preparo mental é um dos principais fatores para enfrentar uma escalada de alta dificuldade. “Sem dúvida nenhuma. Se você não acredita em um projeto, isso vale para qualquer pessoa, é difícil começar um negócio novo.” O alpinista afirma que passou anos visualizando a chegada ao topo do Everest. Entre os rituais, estava observar imagens da montanha, ouvir a música “Marcha da Vitória” e imaginar como seria estar no cume. “A gente não escala uma montanha antes de ter chegado lá na cabeça.”
A preparação, porém, não se limitava ao aspecto psicológico. Rosier também precisou desenvolver condicionamento físico e estruturar financeiramente as expedições. Outro componente importante era o planejamento de cada escalada. Antes de subir uma montanha, era necessário estudar características do terreno, condições climáticas e períodos considerados mais adequados para a expedição.
Entre os fatores analisados estavam a estabilidade da temperatura, o risco de avalanches e a possibilidade de tempestades.
A trajetória até o topo do Everest não ocorreu de forma imediata. Rosier enfrentou três tentativas antes de alcançar o cume da montanha mais alta do mundo. A conquista foi alcançada em 2026, completando uma trajetória que havia começado muitos anos antes com o objetivo de conhecer o mundo e escalar as maiores montanhas de cada continente. Com a conquista do Everest, o cearense completou o desafio dos Sete Cumes, conjunto formado pelas montanhas mais altas de cada continente.

História virou documentário
A trajetória de Rosier Alexandre também chegou às telas. Dirigido por Ian Ruas, o documentário “O Engraxate que Escalou o Everest” estreou em setembro no Canal OFF e está disponível na Globoplay. O longa acompanha a trajetória do alpinista e os desafios enfrentados durante as três tentativas de chegar ao cume do Everest. A produção também recebeu reconhecimento em festivais de cinema no Brasil e no exterior.
Em outubro de 2025, o filme recebeu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Rio Mountain Festival.
Em abril de 2026, conquistou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival Internacional YvY – Festival Internacional de Cinema Ambiental e de Montanhas, realizado em Teresópolis, no Rio de Janeiro. O documentário também foi selecionado para o Festival Internacional de Filmes do Nepal, representando o Brasil. A produção foi escolhida entre cerca de 800 filmes inscritos, de 40 nacionalidades.
A história que começou na zona rural de Monsenhor Tabosa, entre a escassez e o trabalho na roça, transformou-se em uma trajetória de expedições internacionais e chegou ao ponto mais alto do planeta.
