Menu

Fóssil raro de menos de 3 centímetros pode voltar ao Ceará

Animal que viveu no Cariri Cearense há mais de 100 milhões de anos foi encontrado em coleção nos Estados Unidos
Foto: Divulgação

A história de um pequeno animal que viveu há mais de 100 milhões de anos acaba de ganhar um novo capítulo. Com menos de 3 centímetros, o Cicero spectabilis ajuda a revelar como era a vida na região onde hoje está o Cariri Cearense.

O exemplar pertence a um período em que América do Norte, Europa e Norte da Ásia formavam um único continente, enquanto o Brasil permanecia unido à África no supercontinente Gondwana.

Em extraordinário estado de conservação, a peça foi localizada por acaso em uma coleção paleontológica nos Estados Unidos e agora deverá retornar ao Brasil.

ESPÉCIE RARA

A espécie viveu no período Cretáceo, entre 110 milhões e 120 milhões de anos atrás.

O nome científico presta homenagem a Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, figura de grande importância para o Cariri Cearense, enquanto spectabilis vem do latim e significa espetacular.

O nome chama atenção, mas o animal tinha uma função essencial no ambiente. Segundo os pesquisadores, ele atuava na base da cadeia alimentar, vivia no fundo de lagos e processava matéria orgânica, contribuindo para tornar o ecossistema adequado a outras formas de vida.

Criaturas semelhantes ainda existem atualmente e pertencem ao grupo dos isópodes. Esses pequenos crustáceos podem viver em água doce, água salgada ou ambientes terrestres e surgiram há mais de 200 milhões de anos.

Embora exemplares atuais estejam espalhados pelo mundo, o Cicero spectabilis representa um tipo que nunca havia sido descrito pela ciência.

Além disso, não havia registro de fóssil desse grupo encontrado abaixo da Linha do Equador, segundo Allyson Pinheiro, diretor do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPCN), da Universidade Regional do Cariri (Urca).

“É parecido com um tatuzinho de jardim, mas super raro no registro fossilífero. Já tinham sido encontrados outros, mas nada aqui na região, nada no Brasil, nada na América do Sul. Então, a primeira coisa foi perceber que esse material era único. E segundo, foi fácil em alguma medida trabalhar com ele, porque a preservação é espetacular. O material está perfeito. É um animal delicado, fácil de se decompor. Ele [o exemplar] está praticamente todo completo”, informa Allyson Pinheiro.

A peça reforça a importância da Bacia do Araripe, área geológica situada entre Ceará, Piauí e Pernambuco e reconhecida pela grande quantidade de fósseis.

A região reúne nove sítios paleontológicos, com registros de arte rupestre e restos de dinossauros, peixes, insetos e outras espécies.

A descrição do espécime foi feita por uma equipe formada por pesquisadores brasileiros e americanos. O estudo foi publicado em julho na Scientific Reports, periódico ligado à revista Nature, e a expectativa é de que o exemplar passe a integrar a coleção do MPCN quando for repatriado.

CAMINHO DE VOLTA

O primeiro alerta sobre a existência do fóssil nos Estados Unidos surgiu em setembro de 2023.

Na ocasião, o pesquisador estrangeiro Arthur Anker, colaborador frequente de paleontólogos da Urca, comunicou aos brasileiros que havia localizado um exemplar originário do Cariri Cearense em uma coleção do Centro de Paleontologia da Universidade de Illinois.

A partir da informação, pesquisadores cearenses entraram em contato com o responsável pelo acervo em Illinois para solicitar o retorno da peça ao Brasil.

A resposta foi que o fóssil havia sido doado à universidade por uma pessoa anônima, situação que, segundo os paleontólogos do Cariri Cearense, não é incomum.

Com informações do g1 Ceará