A adolescência é uma fase marcada por descobertas, inclusive o início das relações amorosas e da vida sexual. Mas aquilo que deveria ser uma experiência de aprendizado e troca pode, em alguns casos, ser atravessado por agressões. É o que ocorre na chamada violência no namoro, também conhecida como dating violence, que envolve comportamentos físicos, psicológicos, sexuais ou virtuais entre parceiros íntimos.
Uma pesquisa desenvolvida no curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) analisou como adolescentes percebem esse tipo de violência e identificou uma dificuldade importante: alguns jovens não reconhecem determinadas atitudes como comportamentos violentos.
O estudo foi realizado pela psicóloga Maria Gabriela Lira, com participação das professoras Daniely Tatmatsu, do Laboratório de Análise do Comportamento do Ceará (LACCE), e Liana Rosa Elias, do Departamento de Psicologia da UFC.
Foram entrevistados 80 estudantes de uma escola pública de ensino médio de Fortaleza, com idades entre 14 e 18 anos. Do total, 35 eram do gênero masculino e 45 do gênero feminino.
Nem toda agressão é percebida como violência
Os resultados apontaram diferenças na maneira como os adolescentes identificavam comportamentos violentos. As participantes do gênero feminino conseguiram reconhecer com maior facilidade situações de violência. Os comportamentos de violência psicológica, por exemplo, foram identificados em menor quantidade quando comparados a outras formas de agressão. Entre os adolescentes do gênero masculino, abuso sexual e estupro foram os comportamentos menos reconhecidos.
Isso significa que atitudes que podem causar sofrimento ou representar uma forma de violência nem sempre são percebidas dessa maneira pelos próprios jovens.
Violência pode aparecer de diferentes formas
A violência no namoro pode envolver agressões físicas, mas também comportamentos que nem sempre deixam marcas visíveis. Ofensas, ameaças, controle, humilhações, agressões sexuais e violência praticada por meios digitais estão entre as situações que podem ocorrer em relacionamentos. Segundo as pesquisadoras, compreender essas diferentes formas de violência é importante porque os padrões de comportamento aprendidos durante a adolescência podem continuar na vida adulta.
O problema também pode provocar consequências para a saúde física e mental dos adolescentes, além de afetar o desempenho escolar e estar relacionado a situações como depressão, transtornos de ansiedade, ferimentos, infecções sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas.
Meninas estão entre as mais vulneráveis
A violência no namoro também apresenta uma dimensão relacionada às diferenças de gênero. Dados citados no estudo apontam que meninas e jovens mulheres estão entre os grupos mais vulneráveis à violência praticada por parceiros íntimos. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), quase um quarto das jovens de 15 a 19 anos que estão em relacionamentos – cerca de 19 milhões de pessoas no mundo – sofrerão violência física ou sexual praticada pelo parceiro antes dos 20 anos.
Para as pesquisadoras da UFC, discutir o assunto durante a adolescência é uma forma de ajudar os jovens a compreender melhor os limites, o respeito e os comportamentos presentes em uma relação.
“A violência no namoro permanece um tema relativamente novo. É possível que os adolescentes tenham algum tipo de conhecimento sobre o que é a violência por parceiro íntimo entre um casal de adultos por meio do que é mostrado na mídia ou até diretamente visto dentro de casa, mas pouco se fala sobre como essa violência também surge entre jovens que estão aprendendo a se relacionar”, afirma Maria Gabriela Lira.
