A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) voltou a acender o alerta para o avanço do fenômeno El Niño no Oceano Pacífico Equatorial e os possíveis impactos para o Ceará nos próximos meses e, principalmente, durante a quadra chuvosa de 2027.
A preocupação do órgão já vinha sendo discutida desde janeiro deste ano, durante reuniões internas de monitoramento climático. Em abril, a Funceme divulgou uma primeira nota técnica apontando sinais iniciais do aquecimento das águas do Pacífico. Agora, uma nova análise reforça o cenário de atenção após o rápido aumento das temperaturas superficiais no Pacífico Equatorial central-leste – uma das principais características associadas ao desenvolvimento do El Niño.
Segundo dados da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), há mais de 60% de probabilidade de ocorrência de um El Niño forte entre outubro, novembro e dezembro de 2026. Já para o trimestre NDJ 2027 (novembro, dezembro e janeiro), a chance de permanência do fenômeno ultrapassa 90%.
De acordo com o doutor em Meteorologia e diretor técnico da Funceme, Francisco Vasconcelos Júnior, o acompanhamento contínuo é essencial devido aos impactos que o fenômeno pode provocar sobre o comportamento climático do Ceará. “Em geral, o impacto de eventos de El Niño fortes e moderados está relacionado à diminuição da precipitação durante a estação chuvosa e altas temperaturas”, explica.
O especialista ressalta, porém, que cada episódio possui características próprias e que outros fatores também influenciam o clima no Estado.
“Em 2025, por exemplo, foram observadas condições neutras no Pacífico Equatorial. Naquele ano, outros fatores climáticos, como o Atlântico Tropical, tiveram maior influência sobre o comportamento das chuvas no Ceará”, afirma.
Calor intenso e risco de incêndios já preocupam para 2026
Segundo a Funceme, os impactos do fenômeno podem começar a ser sentidos ainda no segundo semestre deste ano, especialmente entre setembro, outubro e novembro. “A preocupação com temperaturas acima da média, aumento da evapotranspiração e maior ressecamento da vegetação e do solo já pode trazer reflexos ainda este ano. Isso pode ampliar impactos sobre recursos hídricos, agricultura e risco de incêndios florestais”, destaca Francisco Vasconcelos Júnior.
O órgão aponta que regiões do Sertão, Inhamuns, Jaguaribana e áreas de caatinga mais vulneráveis ao déficit hídrico devem demandar maior atenção nos próximos meses.
Outro ponto de alerta é o crescimento do risco de queimadas. “O El Niño favorece condições mais secas e quentes, reduzindo a umidade da vegetação e do solo. Isso aumenta a inflamabilidade do material vegetal e facilita a propagação do fogo”, afirma o diretor técnico da Funceme.
A fundação também destaca que fatores humanos, como queimadas irregulares e manejo inadequado do fogo, contribuem diretamente para o aumento dos incêndios florestais.
Quadra chuvosa de 2027 entra no radar
Os impactos mais relevantes do El Niño, no entanto, tendem a ocorrer entre fevereiro e maio de 2027, período correspondente à estação chuvosa do Ceará. Março e abril costumam ser os meses mais sensíveis porque coincidem com o pico de atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema responsável pelas precipitações no estado.
Segundo a Funceme, episódios moderados e fortes do El Niño historicamente estão associados à redução das chuvas no Ceará, embora o cenário ainda esteja em evolução.
Monitoramento começou no início do ano
A Funceme explica que os primeiros sinais de preocupação surgiram ainda no início de 2026, a partir da observação das condições oceânicas em superfície e subsuperfície.
“Naquele momento, o Oceano Pacífico próximo à linha do Equador apresentava diminuição das áreas com águas mais frias. Em subsuperfície, até cerca de 300 metros de profundidade, já era observada a propagação de águas mais quentes da região da Indonésia em direção à costa da América do Sul. Essas ondas, chamadas Ondas de Kelvin Oceânicas, são um importante indicativo da evolução do fenômeno”, detalha Francisco Vasconcelos Júnior.
Apesar do cenário de preocupação, a Funceme reforça que o fenômeno segue em monitoramento constante e que novas notas técnicas e boletins poderão ser divulgados nos próximos meses, conforme houver maior consolidação das projeções climáticas.
