Após pouco mais de dez meses, o Açude Orós, segundo maior do Estado, voltou a sagrar, nesta terça-feira (15). O momento foi registrado com muita alegria por moradores do município homônimo e moradores da região. Com isso, o Ceará chegou a 26 reservatórios transbordando.
Segundo os dados do Portal Hidrológico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), o volume do reservatório já havia alcançado 88,93%, na última terça-feira(14). As chuvas registradas nos últimos dias impulsionaram a recarga hídrica da região.
Com os últimos dias mais favoráveis para precipitações, o Ceará está com um volume percentual médio de 47,18%, somando os 144 açudes monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).
Em 2025, o Orós voltava a sangrar após 14 anos sem registrar o fenômeno. O momento, que foi considerado histórico pela população, aconteceu no dia 26 de abril, por volta das 22h30, sendo inclusive transmitido ao vivo pela Prefeitura. O reservatório, com capacidade 1,94 milhões de metros cúbicos de água, permaneceu com o nível máximo até a metade de julho do ano passado.
Mas nem sempre foi assim. A queda no volume das chuvas, principalmente entre os anos de 2013 e 2021, fez o açude chegar a um estado crítico. Em fevereiro de 2020, por exemplo, esteve com apenas 4,72% de sua capacidade, o menor índice no intervalo dos últimos 20 anos.
Importância
Localizado no Alto do Jaguaribe, o Açude Orós, oficialmente Açude Presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira, foi, por muitos anos, o maior reservatório do Ceará — isso mudou com a inauguração do Castanhão, em 2003.
Além da função hídrica, o açude passou a desempenhar papel relevante na economia regional, ao viabilizar cerca de 900 hectares irrigados, sustentar a piscicultura, assegurar água para a manutenção do rebanho leiteiro e apoiar diversas atividades produtivas do vale.
História
Construído para represar as águas do rio Jaguaribe, o mais importante curso d’água do Ceará, sua construção começou a ser pensada na época do Brasil Império, como alternativa para aliviar as sucessivas secas na região. No entanto, a ideia só foi colocada em prática no século XX.
Entre 1916 e 1920, o reservatório apareceu nos relatórios oficiais da então Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), atual DNOCS, apenas como indicação técnica. Sua existência foi registrada na seção de estudos, em 1917, e na de construção de novos açudes, em 1920.
Em 1918, o engenheiro Patrick O’Meara publicou, na Revista do Instituto do Ceará, um estudo sobre a irrigação no Vale do Jaguaribe, no qual descreveu a irregularidade hídrica da região. “O Jaguaribe seca inteiramente durante oito ou nove meses, todos os anos, e as chuvas são incertas demais para que a agricultura seja tentada sem algum auxílio artificial. Se houvesse um regular suprimento de água ao longo deste vale, podia-se convertê-lo rapidamente em um centro de produção”, relatou.
Nesse contexto, o Orós surgiu justamente como esse “auxílio artificial”: uma intervenção técnica necessária para viabilizar a irrigação em uma região onde o rio seca durante mais da metade do ano. A decisão pela construção do açude foi tomada em meio a uma forte seca no Ceará, entre 1951 e 1953, quando o governo optou por erguer o reservatório como solução para a regularização do rio Jaguaribe e o abastecimento humano.
Acidente
Antes mesmo de ser inaugurado, o Açude Orós enfrentou um dos episódios mais dramáticos de sua história. Aos 17 minutos do dia 26 de março de 1960, as águas decorrentes de chuvas torrenciais extravasaram a parede do açude ainda em construção.
O volume de água lavou o maciço da barragem e, sem resistência suficiente ao impacto, provocou a destruição parcial da estrutura. As águas subsequentes causaram uma violenta enxurrada, que levou grande parte da parede e consumou uma tragédia que só não foi maior devido ao trabalho dos técnicos e operários, além do alerta emitido pelas emissoras de rádio que acompanhavam a situação e avisaram sobre a iminência do desastre.
Dados do período indicam que cerca de 170 mil pessoas foram diretamente afetadas. O evento destruiu plantações, casas, fábricas, estradas e pontes em diversas localidades do Vale do Jaguaribe. Três dias após a tragédia, o então presidente Juscelino Kubitschek esteve no Ceará para visitar as vítimas das inundações. Ao retornar a Brasília, autorizou a reconstrução imediata da barragem e o pagamento de indenizações pelos prejuízos causados.
Em 11 de janeiro de 1961, o Açude Orós foi oficialmente inaugurado, com a presença de Juscelino Kubitschek, marcando o início de uma nova fase na história hídrica do Ceará.
