No Dia Nacional da Caatinga, celebrado em 28 de abril, o debate sobre mudanças climáticas ganha força no país em meio ao agravamento de indicadores ambientais no semiárido. Pesquisa do Instituto Ipsos mostra que 71% dos brasileiros avaliam que o Brasil precisa intensificar as ações de combate à crise climática, acima da média global, de 59%.
O levantamento aponta diferenças entre gerações e gênero. Entre nascidos de 1946 a 1964, o índice de concordância chega a 77%, enquanto entre os nascidos de 1997 a 2012 fica em 67%. Entre mulheres, 75% defendem mais iniciativas, frente a 66% dos homens.
O relatório também registra queda, desde 2021, na disposição individual para agir diretamente contra as mudanças climáticas nos países analisados. A leitura dos pesquisadores é de mudança de postura: cresce a expectativa de que governos e empresas assumam protagonismo, em um cenário mais associado ao cansaço do que à indiferença.
No território da Caatinga, os efeitos já são observáveis. A perda de vegetação nativa e o avanço das queimadas ampliam emissões de carbono e alteram o microclima, intensificando a escassez hídrica em uma região marcada pela irregularidade das chuvas. O resultado é o aumento das áreas suscetíveis à desertificação, com impactos diretos sobre a produção de alimentos, a disponibilidade de água e a permanência das populações no campo.
Dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima indicam que cerca de 62% da Caatinga já apresenta algum nível de suscetibilidade à desertificação. O processo está associado tanto às mudanças climáticas quanto ao uso inadequado do solo, incluindo desmatamento e práticas agropecuárias intensivas.
As projeções apontam para um cenário de maior frequência de eventos extremos, com chuvas mais concentradas, períodos prolongados de seca, redução dos níveis de reservatórios e aumento das ondas de calor. A tendência pressiona sistemas produtivos e amplia a vulnerabilidade social em áreas rurais.
Associação Caatinga
Iniciativas de conservação e adaptação buscam responder a esse contexto. Desde 1998, a Associação Caatinga desenvolve ações voltadas à proteção do bioma e ao fortalecimento de comunidades locais. Entre os resultados, estão a restauração de mais de 260 hectares com espécies nativas e o apoio à criação de áreas protegidas que somam mais de 105 mil hectares.
A atuação inclui a disseminação de tecnologias sociais adaptadas ao semiárido, como cisternas de placas e sistemas de reaproveitamento de água, além de capacitações para uso e manejo dessas soluções e ações de educação ambiental. As estratégias buscam reduzir a pressão sobre os recursos naturais e ampliar a capacidade de resposta das comunidades às variações climáticas.
Com cerca de 862 mil km², a Caatinga ocupa aproximadamente 10% do território nacional e mais da metade do Nordeste, abrangendo nove estados. Mais de 28 milhões de pessoas vivem na região e dependem diretamente dos serviços ecossistêmicos do bioma, como provisão de água, alimentos e regulação climática.
