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CNBB critica Congresso Nacional, falta de decoro e radicalismo e “agradece a Deus” pelo SUS

O Congresso Nacional foi alvo de motim da oposição em um dos momentos mais tensos de 2025. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Em sua carta institucional de fim de ano, divulgada na última segunda-feira (29), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fez duras críticas ao Congresso Nacional e ao cenário político e social do País em 2025. No documento, a entidade afirma que o pagamento “exorbitante” de juros e amortizações da dívida pública tem limitado a capacidade do Estado brasileiro de investir em áreas essenciais como educação, saúde, moradia e segurança pública.

Na mesma mensagem, a CNBB agradeceu a Deus pela existência do Sistema Único de Saúde (SUS), destacando a importância do sistema para a garantia do direito à saúde da população, especialmente em um contexto de profundas desigualdades sociais.

Entre as críticas direcionadas ao Legislativo federal, a conferência citou “a perda de decoro e a falta de responsabilidade por parte de algumas autoridades”. “Discursos de ódio, manipulação da verdade, violências, radicalismos ideológicos e interesses particulares não podem se sobrepor ao bem comum”, destacou.

A CNBB avaliou que o ano de 2025 foi marcado por tensões e retrocessos no convívio democrático. Segundo a entidade, essas experiências “fragilizaram seriamente a confiança nas instituições” e deixaram “feridas abertas no tecido social”. Apesar disso, os bispos reiteraram que a democracia, embora imperfeita, é um patrimônio da sociedade brasileira e exige cuidado permanente, diálogo e responsabilidade institucional.

“A nação precisa reencontrar o caminho da pacificação, do diálogo e do respeito mútuo”, defendeu.

Flexibilização de marcos legais

A carta apontou, ainda, a flexibilização de marcos legais considerados fundamentais para a democracia e o combate à corrupção como retrocessos.

O texto menciona a aprovação do projeto que alterou a Lei da Ficha Limpa. Apesar de a proposta ter sido sancionada pelo presidente Lula (PT) com vetos aos trechos que reduziam o tempo de inelegibilidade de políticos condenados, entidades da sociedade civil avaliam que a mudança pode abrir espaço para tentativas de retorno à vida pública de agentes políticos cassados ou condenados.

A CNBB também se posicionou de forma crítica à proposta de emenda à Constituição que busca inserir a tese do marco temporal no texto constitucional. A entidade classificou a iniciativa como um “desrespeito aos povos originários e tradicionais”, lembrando que o Supremo Tribunal Federal já formou maioria para considerar a tese inconstitucional. O tema tem provocado embates entre o Congresso e o Judiciário.

Outro ponto destacado na carta foi o projeto da Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Segundo a CNBB, a proposta representa uma ameaça à proteção do meio ambiente. O texto tem sido alvo de disputas entre o Congresso e o Executivo, especialmente após a derrubada de vetos presidenciais. Ambientalistas classificam a medida como o “PL da Devastação”, enquanto setores ligados à infraestrutura e ao agronegócio defendem mudanças no modelo atual, considerado por eles excessivamente burocrático.

Aumento da violência e uso de drogras

No campo social, a entidade lamentou a persistência da desigualdade, o aumento da violência – especialmente da violência contra as mulheres -, o uso de drogas, o avanço das economias ilícitas e a perda de decoro e responsabilidade por parte de autoridades públicas. “Discursos de ódio, manipulação da verdade, violências, radicalismos ideológicos e interesses particulares não podem se sobrepor ao bem comum”, afirmou a conferência.

Avanços

Mesmo diante das críticas, a carta também destacou avanços e buscou transmitir uma mensagem de esperança ao povo brasileiro. A CNBB citou melhorias na área da saúde, como o aumento da taxa média de médicos por habitante, além de indicadores econômicos positivos, como a queda do desemprego, a estabilidade da inflação, o crescimento do PIB, a expansão do cooperativismo e a abertura de novos mercados internacionais.

A entidade também reconheceu os esforços do Brasil na busca por respostas coletivas à crise climática e no cuidado com o meio ambiente. O texto menciona a realização da COP-30, em Belém, e a consolidação da liderança do País em energias renováveis. Segundo a CNBB, a Igreja tem se colocado como colaboradora nesse debate, sem assumir protagonismo político.

Por fim, a conferência destacou o aumento do investimento privado em sustentabilidade e em práticas ambientais, sociais e de governança (ESG), além de celebrar iniciativas populares como o Plebiscito Popular sobre a redução da jornada de trabalho e a taxação proporcional à riqueza.