Comer aquele baião de dois quentinho com cheiro verde e acompanhado de uma boa farofa, ouvir e dançar um forró até suar, ou mesmo apreciar as belezas das comidas e quadrilhas juninas no mês de junho: esses são alguns dos hábitos culturais mais fortalezenses que temos, relevados pela mais recente edição da pesquisa Cultura nas Capitais. O estudo foi apresentado na última quinta-feira (15), na Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece), no Seminário Cultura nas Capitais.
Na culinária, quase metade das pessoas entrevistadas, um total de 49%, associa a identidade gastronômica da cidade a pratos com arroz e feijão, sendo o baião de dois citado por 38% dos entrevistados, o que reforça seu papel na tradição e cultura do cotidiano fortalezense.
São muitos os aspectos que fazem o baião de dois ser tão amado. Um deles é sua receita fácil e com ingredientes baratos e acessíveis. Conforme o chef e professor da Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco e da Universidade de Fortaleza (Unifor), Luiz França, as receitas variam entre o mais seco e molhado ao mais encorpado.
“Acredito que até hoje nós, nordestinos, de modo geral, não só cearenses, aperfeiçoamos o prato ao longo do tempo, agregando outros ingredientes como nata, queijo coalho, carne de sol, carne seca (rubacão), agregando mais sabor. Com isso, [o baião de dois] se tornou um prato muito rico, que caracteriza nossa cultura alimentar, também por conta da praticidade de fazer um prato em uma panela só”, pontua o coordenador da pós em patosserie e boulangerie na Unifametro, em entrevista ao Opinião CE.
O prato remonta ao século XX, por volta da década de 40, no sertão cearense, como uma opção de alimentação em tempos de escassez de alimentos. Segundo o professor, é nesse período que a combinação entre o arroz e o feijão “passa alimentar o homem do sertão, dando sustança para conseguir trabalhar debaixo de sol e, muitas vezes, com a falta da proteína animal”.
A afetividade também faz parte do amor pela preferência pelo prato. Conforme o chef, o baião de dois traz muita história, pela resistência, aproveitamento de alimentos e combate à fome. “Para mim, traz ótimas memórias afetivas: semanalmente, consumimos esse prato na minha casa, desde criança faz parte da nossa rotina alimentar. O melhor é que podemos incrementar sempre que temos sobras na geladeira. Usando a criatividade se faz um baião delicioso e nutritivo. O casamento perfeito (arroz com feijão)”, afirma.
LEVANTAMENTO
A pesquisa é o maior levantamento sobre o tema já produzido no Brasil, que analisou o comportamento dos moradores das 26 capitais brasileiras e do Distrito Federal. Conforme a pesquisa, a população de Fortaleza demonstra alto interesse em cultura, no entanto, enfrenta desafios no acesso e na consolidação de referências culturais claras.
A capital cearense teve queda em todas as 12 atividades culturais analisadas nas duas edições da pesquisa (2017 e 2024), com destaque negativo para dança, cinema e bibliotecas, que caíram cerca de 10 pontos percentuais.
METODOLOGIA
Na edição deste ano da pesquisa Cultura nas Capitais foram ouvidas 19.500 pessoas, moradoras de todas as capitais brasileiras, dos 26 estados brasileiros, além de Brasília, com idade a partir de 16 anos, de todos os níveis socioeconômicos, entre os dias 19 de fevereiro e 22 de maio de 2024. As pessoas foram abordadas pessoalmente em pontos de fluxo populacional.
Os pesquisadores foram distribuídos por 1.930 pontos de fluxo (entre 40 e 300 por capital), em regiões com diferentes características sociais e econômicas. Os entrevistados respondiam até 61 perguntas, além das relacionadas a características sociais e econômicas (como escolaridade, cor da pele, etc.). O instituto responsável pelo estudo é o Datafolha.
Além da pergunta sobre renda, a pesquisa também adotou o Critério Brasil de Classificação Econômica, um instrumento de segmentação econômica que utiliza o levantamento de características domiciliares (presença e quantidade de alguns itens domiciliares de conforto e grau de escolaridade do chefe de família) para diferenciar a população em classes: A, B, C, D ou E (Fonte: ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa).
JLEIVA CULTURA E ESPORTE
Jleiva é uma consultoria especializada em concepção, planejamento, execução, análise e disseminação de dados e informações sobre o setor cultural no Brasil. Conduz estudos, mapeamentos e benchmarking para empresas privadas, instituições públicas e organizações sociais com atuação em cultura e esporte, como Fundação Itaú, Fundação Roberto Marinho, Vale, British Council, Vale, Nike, Museu do Amanhã e Instituto Goethe. Desde 2010, realiza pesquisas de hábitos culturais, consolidando-se como referência nessa área.
