“A floresta em pé vale muito mais do que derrubada”. A máxima, usada pelo professor e pesquisador Marcelo Soares, ajuda a expandir a visão de produção sustentável em detrimento da predatória e nos coloca na direção de novos conceitos globais cada vez mais fortes, evidenciados, por exemplo, durante a COP 27, em novembro. Para além do ‘hidrogênio verde’, uma outra cor pode se destacar no cenário local e auxiliar na captação de renda e conhecimento ao Ceará. A chamada ‘economia azul’, que incentiva uma produção sustentável dos recursos costeiros, tem como um dos principais focos os manguezais, presentes em mais de 17 mil hectares no Estado e capazes de estocar até 5 vezes mais carbono do que a floresta Amazônia, por exemplo.
“Os manguezais são importantes na mitigação das mudanças climáticas, porque capturam carbono. Normalmente, a gente pensa na floresta Amazônica e no papel dela do ponto de vista internacional. Mas, um hectare de manguezal cearense captura mais carbono do que um hectare de manguezal da Amazônia. Então, você vê o potencial que nós temos, inclusive, para a captação de recursos de créditos de carbono”, explica Marcelo Soares, professor do Labomar, na Universidade Federal do Ceará (UFC), e pesquisador no Cientista-Chefe Meio Ambiente, programa em parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema).
“O carbono sequestrado por ecossistemas costeiros e marinhos, como os mangues, chamamos de carbono azul. Se o ecossistema é preservado, o carbono continua sequestrado, se ocorre desmatamento ou queimadas, o carbono é liberado. Isso pode gerar muitos recursos porque os países ricos pagariam para manter os ecossistemas intactos ou para recuperá-los”.
Para viabilizar esse processo, o Instituto de Ciências do Mar (Labomar) recebeu, de 12 a 26 de novembro último, uma visita de três pesquisadores do Leibniz Center for Tropical Marine Research (ZMT), de Bremen, na Alemanha: os cientistas Martin Zimmer, Véronique Helfer e Jonas Geburzi. O encontro reforçou a relação entre a UFC e o Centro Leibniz, considerado o melhor instituto europeu no tema. “O foco da visita foi os manguezais”, explica Soares.

Na oportunidade, foram iniciados os cálculos do potencial cearense na captação do carbono. “Vamos fazer um envio de um projeto, em fevereiro, para podermos captar recursos junto ao governo alemão para podermos conseguir fazer o intercâmbio, principalmente, de alunos. Todas as ações trazem recursos financeiros para o nosso Estado e melhoram o nosso indicador de ciência, tecnologia e inovação”, aponta Soares, destacando que, em um cenário globalizado, a pesquisa e ensino também precisam ser globalizados.
“Hoje a gente vive em um mundo globalizado no qual a economia é globalizada, a ciência é globalizada e a educação também. Quando os principais problemas são globais, as soluções também precisam ser globais. Quando trabalhamos de modo internacionalizado, isso ajuda no intercâmbio de estudantes, na melhoria da nossa educação, a trazer recursos para o Brasil. Estamos na Década do Oceano, da Unesco, então, há muitos recursos internacionais a serem trazidos para ciência e tecnologia”.
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MANGUEZAIS NO CEARÁ
Os manguezais protegem a linha de costa contra ressacas do mar e inundações, além de serem filtros de poluentes e berçários da vida marinha. O ecossistema também é utilizado socioeconomicamente, como na pesca e turismo. “Eles estão presentes em 22 municípios da zona costeira”, destaca a especialista em gestão ambiental, Fabiana Pinho, que realizou uma pesquisa inédita com base em levantamentos bibliográficos. Segundo ela, o trabalho contribui para o conhecimento da realidade do ecossistema no Estado.

Já a doutora e professora do Laboratório de Ecologia de Manguezais, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), em Acaraú, Rafaela Maia, aponta que, por conta de sua importância, os gargalos para a preservação do ecossistema precisam ser enfrentados. “Podemos destacar [como desafios] a urbanização, que com frequência acarreta no desmatamento; aterramento de áreas de manguezal; erosão; sedimentação; eutrofização e mudanças nos regimes hidrológicos; a exploração de madeira e superexploração de espécies faunísticas ameaçadas de extinção; a aquicultura não realizada em conformidade com a legislação vigente e as mudanças climáticas”.
Para ela, a parceria entre o Estado e sociedade civil é fundamental nesse processo, “pois aumenta a visibilidade sobre o ecossistema, promovendo a educação ambiental”. “No Ceará estamos à frente com relação a essas questões e cito o Programa Cientista Chefe, o planejamento costeiro, o estabelecimento de novas áreas protegidas, e as legislações municipais específicas, como no município de Acaraú, que torna a educação ambiental para os manguezais uma política pública”, frisa a pesquisadora.
SEMANA ESTADUAL DE PROTEÇÃO
Em 2019, como fruto da parceria entre o Ecomuseu Natural do Mangue e a Assembleia Legislativa, o Ceará foi pioneiro no Brasil na criação da Semana Estadual de Proteção aos Manguezais. Fabiana Pinho, articuladora do Ecomuseu, acredita que este foi um passo importante, mas que é preciso mais avanços. “Se as iniciativas previstas e assinadas na COP 27 realmente saírem das linhas escritas, seguramente irão impactar de forma positiva aqui no Ceará”, ressalta. “Mas não estamos no mesmo barco, como muitos falam. Os países considerados de primeiro mundo e as populações dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento sofrem de formas diferentes e variadas essas consequências”.
“Cada caso deve ser analisado em específico. Mas, é um fato que toda a degradação que causamos aqui em Fortaleza faz com que o planeta seja atingido, assim como a degradação causada em qualquer parte do mundo vem causar desastres aqui“, finaliza.

LEGISLAÇÃO
De olho na economia do mar, que envolve os manguezais, começou a tramitar, nesta semana, na Assembleia Legislativa, um projeto enviado pelo Executivo que cria a Política Estadual de Conservação e Uso Sustentável dos Recursos do Mar (PERM), conhecida como ‘Lei do Mar’. “A economia azul é a exploração sustentável dos recursos marinhos e costeiros, atrelando desenvolvimento econômico à preservação do meio ambiente”, destaca o professor-doutor Luis Ernesto Arruda, coordenador do Programa Cientista Chefe Meio Ambiente.
“O Ceará apresenta uma área costeira e marinha de mais de 249 mil km², 70% maior do que a área terrestre do Estado. Nessa área, se esconde uma riqueza que pode ser utilizada, contribuindo para o crescimento econômico do Estado. Contudo, esse uso precisa ser feito de forma racional e sustentável, respeitando o meio ambiente e os interesses das comunidades costeiras, as quais são, geralmente, as mais impactadas por esse tipo de atividade“, pondera o pesquisador.
Unidades de Convervação no Ceará com a presença de mangues:
- Parque Estadual do Cocó;
- Área de Proteção Ambiental do Rio Pacoti;
- Área de Proteção Ambiental do Estuário do Rio Ceará – Rio Maranguapinho;
- Área de Proteção Ambiental do Estuário do Rio Curu; e
- Área de Proteção Ambiental do Estuário do Rio Mundaú.
Segundo o professor, as áreas de manguezais são fundamentais para a garantia dessa economia limpa e sustentável, ocupando boa parte na nossa zona costeira. “Pesquisas recentes têm demonstrado que os manguezais estão presentes em 22 municípios costeiros do Estado, perfazendo uma área de 17.614,67 hectares, o que corresponde a 1.74% da área de manguezal no Brasil. Vale ressaltar que as maiores áreas de manguezal do País se encontram nos estados do Maranhão e Pará, com 46,3% e 22,52% da área de mangue no Brasil, respectivamente”.
“O Estado tem tomado algumas iniciativas via Sema e programa Cientista Chefe do Meio Ambiente no sentido de propor planos de recuperação de áreas degradadas de manguezal, de auxiliar no planejamento costeiro e marinho, na criação do Observatório Costeiro e Marinho do Ceará, entre várias outras ações que visam a proteção e o uso sustentável dos recursos marinhos.”
Conforme apurou o OPINIÃO CE, foi pedido vistas da matéria que trata da ‘Lei do Mar’ e, após isso, o texto poderá ser apreciado nas comissões técnicas. A previsão é que isso seja feito nesta semana. Além disso, a governadora Izolda Cela (sem partido) deve encaminhar, ainda em 2022, uma proposta para criação da Lei da Política Estadual de Gerenciamento Costeiro, que regulamenta a atividade no oceano no Ceará.
FOTOS DE ÁREAS DE MANGUES EM FORTALEZA:









