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29 de novembro de 2023

Rádio opinião

Uma cearense símbolo de resistência à Ditadura Militar

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Helena Serra Grande enfrentou a Ditadura Militar. Foi presa e torturada pelas forças de repressão e, hoje, é referência da fortaleza aos tempos de ferro no Ceará

Ingrid Campos
ingrid.campos@opiniaoce.com.br

Helena Concentração, como também é conhecida, é médica e doutorado em Medicina (Foto: Natinho Rodrigues)

No ano em que se completam nove décadas da garantia do voto das mulheres no Brasil, é importante lembrar não só quem ajudou a conseguir esse direito como quem lutou para mantê-lo.

No Brasil, desde a conquista do sufrágio feminino, a democracia passou por vários momentos de desgaste. Neste 8 de março, o OPINIÃO CE traz a história de uma ativista que lutou contra um dos períodos mais sombrios deles, a Ditadura Militar.

Entre 1964 e 1985, militantes foram exilados, presos, torturados e mortos. Os que sobreviveram, como Helena Serra Azul, relatam suas histórias de resistência e acendem a esperança de dias mais tranquilos para os brasileiros. A cearense iniciou a sua luta contra a repressão ainda na adolescência, no espaço da Igreja, na Juventude Estudantil Católica (JEC).

Desde então, viveu momentos traumáticos, mas também firmou relações que duraram a vida toda, inclusive com amigas e ativistas mulheres dos tempos de ferro. Entre os companheiros de luta homens, a relação não foi diferente. Helena relata, inclusive, que o ambiente da militância naquele tempo não fazia discriminação de gênero.

“Eu não sofri propriamente dentro do movimento discriminação, não. Tinha mulher que participava da direção. Aqui no Ceará, tinha muita mulher participando do movimento secundarista, que foram presidentes de entidades. Essas pautas específicas existiam, mas o que sobressaía era a luta geral”, afirma.

Não só tendo presenciado a história, mas sido personagem ativa dela, a ironia é que Helena só conseguiu votar pela primeira vez no período de reabertura política, já com um filho quase adulto. O momento compartilhado em família foi um dos marcos da sua trajetória política. Quando entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1967, já atingindo a maioridade, passou a compor a Ação Popular, uma organização revolucionária.

AI-5: GOLPE DURO
O ano seguinte foi um dos mais difíceis de sua vida: com a instauração do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), que inaugurou o momento mais duro do regime, Helena foi presa com apenas dois meses de gestação do seu filho Manuel. Este nasceu no cárcere e nele viveu os seus primeiros sete meses de vida. O marido da ativista, Francisco Monteiro, também foi detido.

“Nós fomos presos e levados para o Dops de Recife. Sofremos todo tipo de tortura, tive ameaça de aborto, torturaram o Chico na minha frente… Você ficava incomunicável, sem direito a advogado, sem direito a nada”, relata Helena. Depois disso, ela conta, eles foram levados a um tribunal militar para serem julgados.

“A grande acusação que fizeram contra mim foi que eu era uma mulher irresponsável, desumana, que tinha colocado meu filho em risco. Era uma inversão, um negócio absurdo”, prossegue. Na ocasião do julgamento, ela carregava seu filho no colo, como teve que fazer no cárcere.

“Eles invadiram as nossas casas pelo fato de a gente estar resistindo.” Em 1972, Helena e o marido voltaram a ser presos, dessa vez em um episódio mais violento. Sempre que as forças de opressão cruzavam seus caminhos de forma direta, eles tinham que reprogramar seus planos de vida. “O tempo todo a gente foi se reconstruindo como se a vida da gente estivesse recomeçando sempre.” Apesar disso, diz, não abriria mão de sua luta.

“Nós estávamos absolutamente corretos.” Assim como Helena, suas irmãs Maria do Carmo (Cacau) e Iracema começaram na luta jovens e foram presas políticas. O combate à repressão na ditadura militar tornou-se um trauma familiar para os Serra Azul. Com o passar dos anos, seus pais – que eram “democratas”, como Helena define, porém não ativistas – tiveram que ajudar de alguma forma o movimento após a detenção das filhas.

A mobilização de figuras maternas de militantes presos, em especial de Maria do Socorro, mãe de Helena e de suas irmãs, dava forças para continuar. “Ela era muito religiosa e ia atrás da gente em tudo que era igreja com outras mães. Elas nos protegeram muito. A gente também tinha o nosso coletivo organizado, tinha essa solidariedade”, relata.

O vínculo que se formou naquele tempo foi tão forte que as parceiras de luta e de cárcere são próximas até hoje e conversam constantemente por um grupo de WhatsApp.

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