A Universidade Federal do Ceará (UFC) obteve da Prefeitura de Jijoca de Jericoacoara o alvará de construção e a licença prévia e de instalação da futura Estação Científica de Jericoacoara, unidade associada ao Instituto de Ciências do Mar (Labomar) que será instalada na Vila de Jericoacoara, a fim de promover ações de pesquisa, educação ambiental e turismo ecológico.
Ao longo de 2024, visando ao licenciamento, foram elaborados os projetos arquitetônico, paisagístico e executivo da Estação Científica, além do estudo de viabilidade ambiental (EVA). O processo foi conduzido por uma equipe multidisciplinar integrada pelo Labomar, a Superintendência de Infraestrutura (UFC Infra) e a Reitoria da UFC, em parceria com instituições contratadas.
Os projetos foram financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Cearense para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), por meio da proposta Jeri na Década do Oceano, coordenado pelo professor Marcelo Soares, do Labomar. Com a conclusão dos projetos e estudos, teve início o trâmite para obtenção do licenciamento.
As construções antigas e sem condições de reaproveitamento no terreno doado à UFC foram demolidas em abril de 2025. O terreno já foi sinalizado com as placas da universidade, do alvará e do licenciamento, estando pronto para receber a construção.
O próximo passo é a realização da licitação pela UFC Infra e pela Pró-Reitoria de Planejamento e Administração (PROPLAD), para definir a empresa responsável pela obra da Estação Científica.
CIÊNCIA E TURISMO
Com 1,6 milhão de visitantes em 2024, o Parque Nacional (Parna) de Jericoacoara é o terceiro mais frequentado do Brasil e o primeiro do Norte, Nordeste e Centro Oeste. Além do parque, Jericoacoara também possui a Área de Proteção Ambiental (APA) da Lagoa da Jijoca, que abrange as famosas lagoas do Paraíso e Azul.
Apesar da relevância socioambiental e econômica, ainda há carência de estruturas voltadas para educação ambiental, pesquisa e turismo sustentável. A Estação Científica da UFC pretende preencher essa lacuna, promovendo ensino, pesquisa e extensão com foco na sustentabilidade. Ela deverá funcionar como centro de produção de conhecimento e divulgação científica para a comunidade local, pesquisadores e visitantes.
“Será um espaço privilegiado para aulas práticas, estágios, escolas internacionais, cursos de capacitação, eventos científicos e pesquisas que beneficiem o poder público e o setor privado. O foco é a interiorização e a internacionalização“, afirma o professor-visitante-sênior Tommaso Giarrizzo, do Labomar.
Para a professora Lidriana Pinheiro, a construção da Estação Científica de Jericoacoara representa um avanço histórico para o Labomar, órgão do qual é diretora, e para as ciências do mar no Brasil.
“Este projeto beneficiará diretamente todos os cursos de graduação do nosso instituto, as ações do Programa de Pós-Graduação em Ciências Marinhas Tropicais [nota 6 na Capes], além de integrar atividades de diversos cursos de graduação e pós-graduação da UFC. Estamos entusiasmados em ver a concretização desse projeto inovador e tão bem conduzido pelos professores Marcelo Soares e Tommaso Giarrizzo, que impulsionará a formação acadêmica, a pesquisa, a extensão e a inovação”, dedstacou Lidriana Pinheiro.
O PROJETO
A Estação Científica contempla ambientes de ensino, pesquisa e extensão, que serão imersos no primeiro jardim botânico de Jericoacoara. O equipamento prevê um modelo de sustentabilidade financeira, viabilizado por parcerias público-privadas. O projeto também se destaca pelo uso de construções sustentáveis, pela baixa geração de resíduos e pela redução da pegada de carbono.
Um exemplo é o uso de madeira engenheirada, como a laminada colada (MLC), que chega pronta para uso direto da fábrica, proveniente de florestas certificadas e áreas de reflorestamento.
“Construções com MLC são leves, reduzem resíduos e impactos ambientais em comparação às construções convencionais, que fazem uso intensivo de areia, cimento e tijolos, o que gera grande quantidade de gases de efeito estufa e que podem acelerar o aquecimento global”, explicam os arquitetos Rendell Torres e Karina Teixeira.
O projeto do Jardim Botânico de Jeri, elaborado pelo paisagista Bruno Ary, ex-aluno da UFC e um dos principais expoentes do paisagismo ecológico no Ceará, terá ampla área verde com espécies nativas, incluindo um espelho d’água para atividades educativas e científicas.
“Elaboramos um projeto com jardins de chuva, bosques adensados, jardim sensorial, jardim de cactos, coleções de frutíferas e cinema ao ar livre. O projeto visa dar à Vila de Jeri uma área verde única para usufruto da população local e turistas, bem como uma área de produção de mudas para recuperação de áreas degradadas“, explica Bruno Ary.
A área construída da Estação será de 1.761 metros quadrados, representando cerca de 30% do terreno cedido à UFC, reforçando o compromisso com o uso sustentável do espaço. “O projeto foi desenhado para se integrar de modo harmonioso ao plano diretor da Vila de Jericoacoara. É um equipamento científico, educacional, turístico e ambiental”, ressalta o professor Marcelo Soares, do Labomar, coordenador da instalação da unidade.
A Estação contará com cinco equipamentos integrados ao Jardim Botânico, como o Museu de Jeri, com exposições físicas e virtuais sobre o meio ambiente e a história local; laboratórios de pesquisa e gabinetes; alojamento para 22 servidores, docentes e pesquisadores e 40 estudantes de graduação e pós-graduação;
Centro de Formação e Escola de Turismo, com quatro salas de aula voltadas à qualificação profissional de moradores e visitantes, incluindo a futura graduação em Turismo Ecológico da UFC; centro de eventos e auditório multifuncional, com capacidade para 300 pessoas.
Por meio de exposições, visitas guiadas, projetos de pesquisa, cursos e atividades educativas, a UFC visa transformar Jericoacoara em um polo de inovação científica e de ecoturismo. “O impacto será significativo, tanto social quanto ambiental, especialmente em um município onde ainda não há universidades, apesar de seu reconhecimento internacional”, destaca o professor Marcelo Soares.
