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21 de julho de 2024

Tudo de novo, e agora? Mas, quando acabou mesmo? crônica nº 11

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Devo confessar, dos festejos de fim de ano para cá ando meio que equidistante dos jornais e das mídias em geral. Hoje, terça, dia 26 de janeiro, organizando uma aula que gravo amanhã, eis que chega no tal de zap: “Estou criando outro grupo porque aquele está chato demais. Coloquei o nome POLÍTICA ZERO”. Cá com meus botões, disse introspectivamente, valha! Imediatamente lembrei do mestre Aristóteles que nos ensina: “O homem é por natureza um animal político…” e do outro que o pôs em cheque e o questionou vinte e quatro séculos depois, Maquiavel que também nos explicou: “O ser humano é um animal político, o homem é necessariamente governante ou governado”.

Pensei, então já está na hora de voltar a observar a realidade estampada da cena política nacional e internacional. E vamos às publicações nos grupos e ao noticiário da TV após o almoço. E aí me deparo: “Olavo de Carvalho vai para o inferno…e coisa e tal”; “A esquerda comemora a morte de um ser humano…”. Bom, eu não tenho muito apreço pelas ideias que o sujeito pregava, e creio que todas as religiões que já estudei, se não me engano, também não. E tome notícia: “Prefeituras dali, pelas bandas do sudeste são investigadas pelo Ministério Público por cobrarem assinatura de responsabilização dos pais para a vacina dos seus pimpolhos”; “Ministério da Saúde reafirma em documento a utilização de remédios sabidamente sem resultados para Covid como o kit cloroquina”.

Fito os olhos na TV e cofiando a barba por fazer, lembro: “É, estamos revivendo a Idade Média mesmo”, (com todo o respeito aquele período de mil anos). Pois é, enquanto a negada aqui discute coisas que a ciência já ensinou há mais de dois anos, os russos e norte-americanos (e o povo do lado ocidental) têm outras preocupações. Não acredito, tudo de novo. E agora? Quando acabou mesmo?

Então, lá vem as notícias internacionais. Vejo o Boris Johnson, o Primeiro Ministro Britânico esbravejando no Parlamento: “Não vou renunciar e não vou me pronunciar com processo em andamento, pois tenho preocupações maiores, como o caso da Ucrânia”.  Foi aí que recebo do amigo, Hamilton Jr a entrevista de Vladimir Putin para um magote de jornalistas e uma jornalista loira inquirindo o todo poderoso chefe do Kremlin: “Você diz que tem intenção de invadir a Ucrânia. Você garantirá incondicionalmente que não invadirá a Ucrânia ou qualquer outro Estado soberano?”.

Continuando com mais uma pergunta: “Você acha que o Ocidente não entende a Rússia ou suas intenções?”. Sobre as garantias, Putin foi direto, “dependerá do processo de negociações e da segurança da Rússia hoje e no futuro”. Na lata, deixou claro que a expansão da OTAN em direção ao Leste seria/é inaceitável dirigindo-se a repórter com outra pergunta: “Será que não dá para entender?” E aí começa a aula de história.

De pronto, o ditador, o mandatário, sei lá o que, argumenta que foram eles, os norte-americanos que colocaram mísseis na porta da casa deles e não os russos na fronteira do Canadá ou do México com os Estados Unidos. E questiona a plateia: “Será que o México e os EUA nunca tiveram disputas territoriais? De quem eram a Califórnia e o Texas antes? Ninguém lembra disso hoje como lembram da Crimeia. E nós tentamos não lembrar como a Ucrânia foi formada. Quem a criou? Vladimir Lenin quando criou a URSS”. Sim, Putin relativiza a história em momentos diferentes, mas não deixa de ser interessante.

Muito pelo contrário. Como nos ensina o grande historiador francês, Paul Veyne em seu livro, “Como se Escreve a História; Foucault revoluciona a história”: “A História não explica, no sentido de que ela não pode deduzir e prever (…). É o sentido que o historiador dá à narração”. Pois bem, qual o interesse dos russos no território da Ucrânia? No passado, qual o interesse dos estadunidenses nos territórios da Califórnia e do Texas?

Em verdade, a Rússia anexou em 2014, a península ucraniana da Crimeia pela sua importância geográfica e estratégica, localizada na região sul do país as margens do Mar Negro. Portanto, a região é querida pela importância comercial e militar, além de ser uma grande produtora de grãos e vinhos é uma forte indústria alimentícia etc e tal. Por outro lado, os Estados Unidos, na sua expansão territorial no século XIX, conhecida como “Marcha para o Oeste” aconteceu pela diplomacia ou compra de territórios, mas também pela guerra.

Ideologicamente, esse processo de ataque contra mexicanos e indígenas ficou conhecido como por volta de 1845 como, Destino Manifesto, ao afirmarem que “os Estados Unidos eram uma nação predestinada por Deus para ocupar aqueles territórios e levar a civilização” para aqueles povos. (Vixe, e haja religião!). Os norte-americanos estavam interessados também na expansão geográfica e estratégica pela proximidade da América latina e as suas riquezas. Mas, será que hoje, os norte-americanos querem e/ou desejam devolver o Estado da Califórnia com a sua concentração de indústrias de ponta e centros de pesquisas conhecida mundialmente como o Silicon Valley (Vale do Silício) em São Francisco ou a Califórnia com a sua farta agropecuária e a sua produção de petróleo?

E, hoje, os russos, por tudo que já foi citado anteriormente? Putin sabe que o seu desejo não será atendido, o de que a Ucrânia não fará parte da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental) e, claro, como medida preventiva enviou 100 mil soldados à fronteira entre os dois países. Gente, o Muro de Berlim caiu em 1989 e os países ditos do Leste Europeu deixaram o “socialismo” de lado.

Inclusive, aqui no Brasil, nas eleições seguintes, o Lula abandonou essa ideia. A desintegração da União Soviética ocorreu em 26 de dezembro de 1991 com a declaração de reconhecimento da independência das antigas repúblicas soviéticas com a criação da Comunidade de Estados Independentes (CEI). Pois é, acabou o dito “comunismo” (que nunca houve de fato).

A tal da Guerra Fria teve início na Conferência de Postdam, na Alemanha em 1945, mas, quando foi mesmo o seu fim, que não me recordo? E, haja História.

Por Wagner Castro, professor, historiador e compositor (wagnerdecastro5@gmail.com)

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