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Seu Evaristo: o cearense que viaja o Brasil e mantém viva a Literatura de Cordel

Evaristo é natural de Quixadá e possui 145 títulos no formato folheto. Foto: Arquivo pessoal

Desde Leandro Gomes, considerado o primeiro cordelista brasileiro, a Patativa do Assaré, o maior representante do cordel cearense, a produção dessa arte é uma marca da escrita nordestina na literatura brasileira.

A produção cearense se mantém viva por meio de poetas que se dedicam à escrita desse estilo literário. O cordelista cearense Evaristo Geraldo produz seus poemas influenciados por uma tradição passada de geração para geração.

Para celebrar essa importante demonstração cultural cearense, o Opinião CE traz a série de matérias especiais Cordel Nordestino: a tradição que superou gerações”, mostrando a prevalência da escrita e do consumo de cordel no Ceará. Uma das histórias contadas é da cordelista Arlene Holanda, que escreve desde 1985, em variados estilos literários.

O escritor Evaristo Geraldo viaja o Brasil participando de bienais e feiras literárias para divulgar seus cordéis, além de possuir obras adotadas por instituições estudantis em São Paulo, Brasília e Minas Gerais. Seu Evaristo, natural de Quixadá, no Sertão cearense, e nascido em Rinaré, costuma dizer que o cordel entrou em sua família antes mesmo do seu nascimento. O avô materno do cordelista recebia cantadores, violeiros e repentistas na sua fazenda.

A mãe de Evaristo conta que um ícone do repentismo, Cego Aderaldo, passou por lá. A figura carrega o nome do Instituto Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá. Evaristo lembra que sua própria mãe lavou a roupa do personagem histórico e de outros cordelistas.

“Por isso que eu digo que a poesia chegou na minha família antes de mim. O meu irmão mais velho, Severino Batista, era repentista, violeiro. Ele saía para as feiras vizinhas e, nas andanças, nas feiras, trazia cordel para ler para nós”, relata o cordelista.

Seu Evaristo aprendeu a ler por meio dos folhetos de cordel e se considera praticamente um autodidata. “Meu tempo de escola é pouco, mas, graças a Deus, eu tenho um certo conhecimento”, pontua.

No final da década de 90 e chegando no século 20, Evaristo “se meteu a escrever”, como ele mesmo diz. Desde então, publicou 145 títulos no formato folheto e 30 livros.

Evaristo publicou mais de 145 títulos no formato folheto e 30 livros. Foto: Arquivo pessoal

Livros estes adotados em vários programas governamentais, no Ceará, em outros estados nordestinos e chegando a outros espaços pelo Brasil, como em São Paulo, Minas Gerais e em Brasília.

“Agora mesmo, foi vendida uma quantidade extensa, quase 5 mil exemplares, do livro A Criação da Noite e Cordel de Arrepiar África. Foram vendidos perto de 5 mil exemplares para Juazeiro, na Bahia. Também para Acaraú, para São Paulo”, informa o cordelista.

A ROTINA DO CORDELISTA

“A rotina do cordelista é um pouco solitária, como de todo escritor”, avalia Evaristo. Para ele, o cordelista tem que ser como qualquer outro escritor – leitor, pesquisador e falar com propriedade, com conhecimento de causa. “É preciso, como conta o dito popular, dizer coisa com coisa, com coerência”.

A rotina do cordelista é composta por momentos de leitura, de pesquisa e de eventos. Evaristo participa de feiras literárias pelo Brasil inteiro, como bienais.

Seu Evaristo participou de todas as feiras literárias cearenses com espaço para cordéis. Foto: Arquivo pessoal

Ele ressalta um nível maior de desafio: a dificuldade para publicar os primeiros folhetos de cordel.

Atualmente, o cordelista possui um acervo com suas produções, mas evidencia a dificuldade para um escritor iniciante transformar seu texto em um folhetim tradicional. A publicação exige um investimento financeiro que a maioria dos cordelistas iniciantes não possui.

INCENTIVOS FINANCEIROS

Seu Evaristo recebe apoio financeiro para participar de feiras literárias no Ceará, nas cidades de Sobral, Icó, Aracati, Limoeiro do Norte e Acaraú. “Nessas feiras do Estado, recebemos transporte, alimentação e estadia. A gente vai só pela venda”, informa.

Além do suporte logístico, o cordelista recebe cachê em alguns eventos. No entanto, em alguns momentos, todos os gastos são bancados pelo próprio artista. “A gente vai com a cara e a coragem. Em São Paulo, no ano passado, eu e outros poetas como Klévisson Vianna fomos bancando tudo do próprio bolso”, conta o escritor.

Na Bienal de Pernambuco, por exemplo, foi disponibilizado um espaço gratuito dentro do evento, mas toda a despesa saiu do próprio bolso. “Tem toda essa questão, mas sempre a gente está participando, independente de qualquer coisa. Faz parte da nossa vida”, pontua o cordelista.

CORDEL COMO DISCIPLINA ESCOLAR

Evaristo defende o incentivo educacional para gerar o interesse na população. Ele defende a criação de uma lei de incentivo que coloque o cordel no currículo escolar. Com isso, a compra do folheto poderia ser realizada pelas próprias escolas.

“Para isso chegar na sala de aula, chegar na mão dos alunos, ser uma disciplina, não ser um paradidático, mas ser uma disciplina”, defende .

Cordelista defende que literatura de cordel deveria ser incluída no currículo escolar. Foto: Arquivo pessoal

No entanto, ainda permanece a dificuldade de desenvolver estratégias para manter os folhetos de cordel relevantes em um meio dominado pelo digital.

“Tem livro meu adotado em São Paulo, em sala de aula, adotado em Brasília, em Minas, enfim. Mas tem muitos outros que não chegaram a alcançar essas conquistas. Se criasse uma lei tornando obrigatória a compra desse material do cordel, que é tipicamente nordestino, para ir para a sala de aula, seria bem interessante. Teríamos como dar continuidade a esse gênero literário”, destacou.

POR QUE CONTINUAR ESCREVENDO CORDEL?

Apesar das dificuldades, Seu Evaristo pontua que o cordel faz parte do seu DNA, não consegue ver a sua vida sem a escrita de cordel. “Continuo escrevendo porque o cordel faz parte da minha vida, faz parte do meu DNA. Não me vejo sem o cordel, sem estar participando de eventos, sem estar recitando, sem estar escrevendo, sem estar participando de feiras e bienais. Faz parte da minha vida”, pontua.

“Foi onde eu me achei, onde me fiz ser visto e, com certeza, o motivo pelo qual serei lembrado após a minha partida. O homem passa, mas o escrito que ele deixa repercute por muitos anos. O cordel, para mim, é tudo. Não me vejo sem o cordel e continuo escrevendo porque amo a literatura, e a literatura de cordel”, finaliza o poeta.