“Eu não me alimentava mais, pois já estava em estado terminal e surgiu a oportunidade, quase um mês antes de eu não ter mais condições de vida, de receber um fígado de um menino de 14 anos, do Crato, no Cariri. Porém, tínhamos dificuldade de buscar o fígado lá. Aí, o [então] governador Lúcio Alcântara, através da Casa Militar, permitiu que o avião do Estado fosse lá buscar”, lembra, emocionado, o ex-secretário de Segurança Pública do Ceará e ex-delegado federal, Renato Torrano.
Pai de dois filhos, com 77 anos de vida e prestes a completar 20 anos de transplantado, data comemorada no próximo dia 28 de outubro, Torrano relembra com alegria a nova chance que teve e aproveita: “No dia que recebi a notícia, me ligaram do hospital – até me emociono um pouco -, e eu achei que fossem me convidar para fazer alguma ação, e disseram: ‘o seu fígado chegou'”, conta. No mês de setembro, quando é celebrado o “Setembro Verde” em alusão à doação de órgãos, Torrano diz estar empenhado na missão de incentivar e ressaltar a importância do ato.
O ex-secretário conta, em entrevista exclusiva ao OPINIÃO CE, como realizou o procedimento que salvou sua vida no Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza, através do Sistema Único de Saúde (SUS), por onde é acompanhado até hoje.
Mesmo após o transplante, Torrano relata que havia baixas expectativas de recuperação e de seu corpo aceitar o fígado recebido. “Achavam que não tinha jeito. Sempre que acontecia alguma coisa, eu era entubado. Mas minha expectativa era uma só: o ‘Espírito Santo cuidando de mim'”. Após idas e vindas à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), acompanhadas de quadros de infecção generalizada e intubação, Torrano ainda precisou passar por um período de dois anos em casa, visando a recuperação total. Hoje, com assistência pelo SUS, o ex-secretário recebe os remédios necessários e visita o médico de seis em seis meses.
“Eu tinha que ir ao médico de 15 em 15 dias, depois de 30 em 30 dias e hoje eu vou de seis em seis meses. Os exames têm dado resultado perfeito, até a minha doutora disse que parece que o fígado é meu. Muita gente sai do Ceará para se tratar, mas não há necessidade. Os médicos daqui são muito competentes e as estruturas hospitalares também. Digo isso pois sou prova disso”, constatou.
O Setembro Verde acolhe campanhas de conscientização e estímulo à doação de órgãos e tecidos. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), o Ceará, anualmente, fica entre os estados que mais realizam transplantes de órgãos no país. No Brasil, que tem o maior sistema público de transplantes do mundo, cerca de 95% dos procedimentos e cirurgias são realizados com recursos públicos.

Ao destacar a importância da doação de órgãos, Torrano compartilha a vontade de realizar uma campanha como estímulo à contribuição que pode salvar vidas. “Vou fazer um outdoor pedindo que as pessoas doem. Hoje é tão simples doar, é chegar e dizer que é doador. Tem casos, por exemplo, que uma só pessoa pode salvar a vida de seis ou sete outras pessoas”, ressalta.
EVOLUÇÃO
Questionado sobre a evolução no sistema de transplante cearense, Renato Torrano pontua dois fatores: a mudança na fila de espera e o número de hospitais que realizam o procedimento cirúrgico. “Antigamente, a chamada era por fila. No sistema de hoje, aqueles que estão em estado mais grave têm preferência para operação. Isso é evolução. Outra coisa que eu também acho que evoluiu é que hoje o Ceará tem dois lugares que fazem transplante. Um é o Hospital Walter Cantídio e o outro é o Hospital São Carlos”, disse.
Atualmente, o Ceará conta com 62 hospitais notificantes, entre públicos, privados e filantrópicos, cadastrados no Sistema Nacional de Transplantes (SNT) do Ministério da Saúde. Segundo dados mais recentes divulgados pela Sesa, em 2022, 1.662 transplantes foram realizados no Estado, somando órgãos, tecidos (córnea, esclera e valva cardíaca) e células (medula óssea).

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS NO CEARÁ
Um único doador pode salvar a vida de, pelo menos, 10 pessoas. Para ser um doador de órgãos no Brasil, basta demonstrar, em vida, o desejo de se tornar um. A doação pode ser de órgãos (rim, fígado, coração, pâncreas e pulmão) ou de tecidos (córnea, pele, ossos, válvulas cardíacas, cartilagem, medula óssea e sangue de cordão umbilical). A doação de órgãos como o rim, parte do fígado ou parte do pulmão e da medula óssea pode ser feita em vida. O doador vivo é qualquer pessoa saudável que concorde com a doação, desde que não prejudique a sua própria saúde. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Não parentes, somente com autorização judicial, segundo o Ministério da Saúde.
Contribuindo com a coordenação das atividades de transplante no âmbito estadual, a Central de Transplantes do Ceará funciona 24 horas, sete dias por semana, na sede da Secretaria da Saúde do Estado. Entre as principais responsabilidades estão regular a lista dos receptores de órgãos e tecidos, receber notificações de potenciais doadores com diagnóstico de morte encefálica e articular a logística que torna a cirurgia de transplante possível.
