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O Brasil de desafios que vai existir no próximo ano

Pesquisadores nacionais ouvidos pelo OPINIÃO CE destacam economia, relações institucionais e política externa como áreas a serem trabalhadas com urgência por quem vencer as Eleições 2022
Funcionários limpam vidros do Palácio do Planalto: quem governar o país a partir de 1.º de janeiro de 2023 vai enfrentar uma série de desafios econômicos. Foto: Marcos Correa/PR

Neste domingo, 30, o Brasil conhecerá o seu próximo presidente, que terá que lidar com desafios novos, causados pela pandemia, por exemplo, pelo cenário internacional, pela crise econômica, entre outros. O OPINIÃO CE ouviu especialistas que projetaram os possíveis cenários reservados ao ano de 2023. A inflação esperada para o próximo ano no Brasil é de 4,7%.

O cenário internacional também deve ser bastante desafiador, com a inflação global atingindo diversos países. Com o aumento da inflação, o movimento mais comum dos países é de aumentar a taxa de juros, o que reduz a expectativa de crescimento global para 2023. Professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e pós-doutor em Ciência Econômica, Sergio Duarte de Castro afirma que apesar dos desafios, há uma possibilidade otimista de melhora.

“É um quadro preocupante, mas que, ao mesmo tempo, traz possibilidades. Observando pelo lado mais otimista, há o fato de que a China, que estava mantendo um controle rígido da pandemia até hoje, começou a funcionar novamente a pleno vapor. Como esse país é responsável pela maior demanda das commodities brasileiras, a expectativa de mais de 5% de crescimento da China pode aumentaro valor da nossa produção agrícola e mineral.” O economista lembra que o Brasil não crescia antes da pandemia, mas mostrou dinamismo após a injeção de dinheiro via Auxílio Brasil, que aqueceu a economia nacional e, com uma política nacional adequada, o país pode superar as previsões.

“Obviamente, não será um ano excelente, mas com políticas adequadas pode ser melhor do que o que está se prevendo agora, um crescimento de 0,5%, e pode ser um ano que sirva de preparação para plena recuperação a partir de 2024. Há possibilidades, pois temos uma capacidade reprimida. A manutenção dos incentivos no ano que vem, aliada à investimentos em infraestrutura e à estabilização do clima político, é uma grande oportunidade. Desde 2014, os investimentos são afastados devido à instabilidade política. Espero que, com a legitimação de um presidente, ao fim das eleições, acabe de uma vez esse clima de radicalidade que vem se refletindo na economia.”

O professor da Universidade de São Paulo (USP) e doutorando em Ciência Política, Pedro Costa Jr, define que o mais importante para o país é voltar a crescer. “Primeiro de tudo, o Brasil tem que voltar a crescer. Somos um país de cerca de 220 milhões de habitantes. E, se um país não cresce, não tem emprego. Sem emprego, não tem renda. E, sem renda, não há consumo. E aí as pessoas não comem. Simples assim. As pessoas não têm como sobreviver, não tem como pagar aluguel, não tem como se transportar e não tem como se alimentar. Então, é preciso crescer a economia.”

O cientista político também alerta para o desemprego no país e cita a geração de oportunidades como o caminho para tirar as pessoas da fila da fome. “O problema é que você tem que incorporar tudo para uma juventude que está chegando desolada para o mercado de trabalho. Existem os chamados nem nem, que nem estudam e nem trabalham, que segundo as últimas pesquisas atingiram a marca de 30%, ou seja, um terço da população. A cada três brasileiros, um não estuda e nem trabalha, estão desalentados”, afirma.

E A POLÍTICA?

O próximo presidente terá o desafio de equilibrar os poderes e ter uma boa relação com o Congresso Nacional. A professora da PUC-SP e pós-doutora em Ciências Sociais Rosemary Segurado cita atitudes que o próximo governante deve tomar.

“É muito importante uma articulação com o Congresso Nacional, principalmente tentando desmontar esse golpe, porque é um verdadeiro golpe o que estamos vendo em relação ao chamado Orçamento Secreto. São parlamentares que pedem verbas e emendas para fazerem atividades nas suas regiões que, muitas vezes, nem são prioritárias para a necessidade da população. Terá que ter uma costura. O Congresso não vai poder sequestrar o orçamento como tem feito nos últimos anos. Espero que o próximo governo tenha essas questões em mente e o ânimo de recolocar o país nos trilhos.”

Já Marcos Marinho, professor da PUC-GO e consultor em marketing político, avalia que o próximo presidente encontrará um Congresso com parlamentares ambiciosos, acostumados a exigir e demandar bastante o atual governo. “O próximo presidente irá encontrar um Congresso com esse tom de exigências volumosas, já que não deve sofrer tantas alterações. É um parlamento que percebeu que consegue se organizar para demandar mais. O grande desafio será criar meios para regular essas exigências.” O docente também cita, assim como Rosemary, a dificuldade de lidar com os orçamentos despachados secretamente pelo Legislativo.

“No processo, há variáveis como a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e a força do presidente legitimado popularmente. Movido pela opinião pública, um presidente pode diminuir essa força do Congresso. Não é uma questão ancorada apenas no Executivo, o que deixa tudo mais imprevisível. Apenas metade da possibilidade de reconfiguração depende do presidente.”

DIPLOMACIA

A imagem internacional do Brasil atualmente está desgastada. De acordo com Pedro Costa Jr, o principal motivo é a forma como o atual governo conduziu em relação à pandemia.

“O Brasil foi transformado em inimigo da comunidade internacional. É preciso voltar a fazer diplomacia. O país conduziu muito mal a pandemia. Nós temos 3% da população mundial e sofremos com 11% das vítimas e isso pegou muito mal para a opinião pública global. Também aconteceu o maior desmatamento proporcional da história da Amazônia, com 20 milhões de árvores derrubadas, e a questão climática é agenda em todos os países. O Brasil é o maior país tropical do mundo, é onde está a maior parte da Amazônia e a comunidade internacional está preocupada com o que está acontecendo aqui.”

Para Carlos Patti, doutor em História das Relações Internacionais, o Brasil perdeu a sua identidade diplomática durante os últimos anos. “A partir de 2015, a imagem do Brasil começou a deixar de ser aquela de uma potência emergente e de sexto lugar na economia mundial. As expectativas foram frustradas.”

Mas, segundo o pesquisador, ainda há um grande potencial no país a ser explorado. “O Brasil ainda é membro do G20, está participando do diálogo internacional, almeja uma posição permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e possui um Itamaraty ativo em cenários de cooperação. Em relação à guerra entre Rússia e Ucrânia, o Brasil e a Rússia fazem parte do Brics [agrupamento de países de mercado emergente em relação ao seu desenvolvimento econômico], porém a maior parte da Europa e Ocidente apoiam a Ucrânia. O próximo mandatário terá que ter jogo de cintura para se articular e aprofundar parcerias.”

O que diz relatório de agência da ONU sobre o Brasil
A Agência das Nações para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) avalia que a economia brasileira “está agora em risco de uma desaceleração abrupta”, ou seja, em maior pressão no novo mandato presidencial. “Independentemente dos resultados eleitorais de 2022, provavelmente haverá um impulso fiscal negativo em 2023, o que, juntamente com os efeitos retardados do aperto monetário, deverá reduzir o crescimento do PIB para apenas 0,6% em 2023”, afirma a agencia da Organização das Nações Unidas (ONU) em relatório publicado no último dia 3, sobre a economia mundial.
A estimativa da entidade é de que a economia brasileira terá um PIB real bem abaixo do potencial em 2023. Calcula que em 2023 o hiato do produto (output gap, a diferença percentual entre o PIB e o produto potencial) fica em -2,8% no Brasil, comparado a -5,8% no México e -9,2% na Indonésia.

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