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23 de julho de 2024

Reforma do Ensino Médio, Educação e Trabalho

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Como de costume, chegou o dia da corriqueira bateria de exames da minha querida mãe de quase noventa anos. Logo ali, na esquina da rua Lauro Maia com Soriano Albuquerque as cenas chamavam atenção. Minha mãe que já anda com a memória desgastada, disse: “olha, o que vai fazer esse homem e essa criança arrumada de palhaço numa hora dessas?” E, a cuidadora em seguida: “Olha, na outra esquina, aquele menino está de Super-homem ou Batman?” Então, fiz o seguinte comentário: eles estão trabalhando, fazendo malabarismo nos sinais para ganhar o pão de cada dia. Minha mãe, que não é nada tola, retrucou. “Mas esses meninos não deviam está na escola!” Bateu aquele silêncio.

Como educador, fiquei pensando no destino daqueles jovens pais e os meninos com cerca de cinco ou seis anos. Dirigindo, fiquei a fazer elucubrações a respeito do trabalho e da pobreza, e lembrei uma passagem do discurso ou Oração de Péricles aos concidadãos atenienses no século V: “Sabemos conciliar o gosto pelo belo com a simplicidade e o gosto pelos estudos com a coragem. Usamos a riqueza para a ação e não para uma vã exibição em palavras. Entre nós, não é desonroso admitir a pobreza, mas o é não tentar evitá-la. Os mesmos homens podem dedicar-se aos seus negócios particulares e aos do Estado […].” Com certeza, os pais dos garotos não tiveram acesso à educação tal como os cidadãos atenienses, mas educam seus filhos como podem e trabalham para evitar a miséria, pois já conhecem a pobreza. E, depois do “trabalho”, será que os meninos frequentam a escola? Sem a escolarização, sem alimentação adequada, sem um ambiente familiar físico e cultural, sem estímulo e, diante da exclusão social, o menino vestido de palhaço não se tornará um futuro Coringa? Será que o menino de Super-homem ou Batman terá melhor destino como o idealizado pela cinematografia?

Mas o Batman do cinema era filho de pais abastados, milionários, e faz justiça com as próprias mãos na fictícia Gotham City. Ou será que logo irão entrar na estatística de jovens mortos pelo crime organizado ou pelo Estado? O Ensino Médio, o fosso, o desastre da escola brasileira, teve lei sancionada e será posto em prática a partir deste ano. No novo Ensino Médio, os estudantes terão disciplinas oferecidas, ou seja, cada aluno poderá escolher uma parte da carga horária como componente curricular de interesse. Será que estamos preparados para isso? Parece evidente que a reforma vem acompanhada de um aumento das exigências educacionais do mercado de trabalho. E o trabalho muda o mundo? A “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas”. Viva Paulo Freire!

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