Nascido e criado em Fortaleza, Xauí Peixoto Torres Azevedo é articulador, produtor e gestor cultural. Ele coordenou a Rede Cearense de Pontos de Cultura e o Programa Cultura Viva Ceará, no Instituto Dragão do Mar, e participou da Coordenação da Articulação Nacional de Emergência Cultural e do Comitê Nacional Paulo Gustavo, inclusive na formulação da Lei Paulo Gustavo e da Lei Aldir Blanc 1 e 2.
Antes de se engajar no meio político, Xauí Peixoto foi vendedor de tênis na Capital, o que rendeu a ele o apelido de “Xauí da Nike.” A vivência em várias “quebradas” da Cidade, desde adolescente, conectou o cearense com várias realidades diferentes, o que gerou nele noções de cidadania, diversidade e diálogo fundamentais para trilhar o caminho no qual está hoje.
Atualmente, ele é assessor de Políticas Afirmativas e Comunitárias do Instituto Mirante de Cultura e Arte do Ceará e foi o 24° cearense a ser escolhido para participar da equipe de transição do governo do presidente eleito, Lula (PT). O gestor irá participar voluntariamente do Grupo Técnico de Cultura até o próximo dia 2.
OPINIÃO CE: Antes do seu papel na cultura local, como foram sua infância e adolescência e como ambas moldaram você?
XAUÍ PEIXOTO: Eu tive uma infância, a meu ver, tranquila. Sempre tive uma boa relação, enquanto criança, com família, com os pais e com a escola. Sempre, segundo meus pais, muito danado, agitado, hiperativo e comunicativo. Já na adolescência, passei a ter uma vida mais de interação com as ruas, com o bairro, com a cidade… Muito cedo, eu já estava circulando por aí, me ‘danando’ também, já com muito mais interesse na pedagogia da rua, nos encontros e nas trocas, me afastando um pouco do tradicional de um adolescente idealizado pelos pais. Por isso, ainda muito cedo, transitei bastante em culturas diferentes, em festas, em eventos, em quadras, em praças, em praias e acabei sendo pai aos 15 anos.
OPINIÃO CE: Como as suas experiências na adolescência influenciaram a forma como enxerga o mundo e aproximaram você da cultura?
XAUÍ PEIXOTO: Acho que o fato de eu circular em vários locais me trouxe uma noção de cidadania, de diversidade, de troca e de diálogo. Muitas vezes, saía da Cidade dos Funcionários, Parque Manibura, Jardim das Oliveiras e ia para a Praia do Futuro, para a Praia de Iracema ou ia para a casa do meu pai, no Jacarecanga, e transitava nas ‘quebradas’ de outros amigos. Isto me fez perceber diversas realidades distintas. Então, muito cedo, me integrava em ações sociais e culturais, seja onde morava ou em outros lugares, nos meus 16,17 anos. E isso me trouxe a percepção de que, independente de onde você mora, independente do que seus pais fazem, ou se você tem grana ou não, todos temos que ter oportunidades.
OPINIÃO CE: O que o levou a trabalhar com a área da cultura?
XAUÍ PEIXOTO: Isto passa pela minha entrada no campo eleitoral e no campo partidário. Eu trabalhava de forma autônoma, panfletando, vendendo tênis. Tinha uma história que o pessoal me chamava de ‘Xauí da Nike.’ Se precisasse vender perfume, caneta, eu vendia também. No meio disso, tinha uma namorada que a mãe dela trabalhava na assessoria de um vereador, Guilherme Sampaio, que tinha uma atuação muito forte na área da cultura. Acabei indo trabalhar em uma campanha, e meu espírito ativo me fez ocupar alguns espaços de mobilização e de liderança. Quando terminou a campanha, ele me convidou para fazer uma assessoria de juventude. Eu tinha por volta de 22 anos. Lembro que saí da sala dele sem saber o que era isso e coloquei no Google. Saiu uma publicação do governo Lula sobre as PPJs. Imprimi um calhamaço de 500 páginas e fui para casa com sede de aprender sobre aquilo. A partir daí, me inscrevi num curso de lideranças juvenis e comecei a atuar na área. Com isso, conheci algumas pessoas do PT e acabei me filiando. Fiquei durante cinco anos trabalhando nessa assessoria da juventude.
OPINIÃO CE: Como você enxerga a cultura e qual a importância da preservação dela?
XAUÍ PEIXOTO: A cultura contribui fortemente para a expansão da análise crítica e para um empoderamento social em torno do que é a sociedade. Então, a identidade histórica e cultural do nosso país e da nossa cidade diz muito da gente. Nós moramos num país que é muito atacado por outras culturas. Por isso, a gente tende a saber mais sobre outras culturas do que sobre a nossa própria. É por isso que é importante a gente ressaltar isso, porque é por meio dos nossos movimentos culturais que sabemos de onde viemos e para onde vamos. Além disso, esses movimentos são a nossa identidade. Todos foram ou são vinculados a grandes lutas políticas e a grandes segmentos de povos. E hoje a cultura também é trabalho, é economia, educação, meio ambiente, turismo, mobilidade… Ela permeia todas as áreas da nossa sociedade. É daí que se dá a importância dela ser tratada como um eixo central de desenvolvimento social, humano e econômico.
OPINIÃO CE: Em relação à cultura cearense, como você vê o desenvolvimento dela hoje? Existem muitos movimentos locais, muitas pessoas interessadas em pautas culturais no Estado?
XAUÍ PEIXOTO: O Ceará como um todo sempre teve uma diversidade cultural muito grande, que acompanha muito a diversidade de climas e de pessoas que moram no Estado. Se você olhar para o Cariri, é um grande caldeirão cultural e artístico. Se você olhar mais para a Capital, a periferia tem muitos movimentos de hip-hop. A cultura é uma veia muito forte e diversificada no Ceará. Se você for olhar nacionalmente, nós nos destacamos no audiovisual, na dança, no teatro, na formulação de políticas públicas, em culturas indígenas, quilombolas e em muitas outras áreas.
OPINIÃO CE: Qual a sua leitura acerca do apoio institucional à cultura no Ceará?
XAUÍ PEIXOTO: O Ceará mantém uma linha que, se você fizer uma comparação com outros estados, nós sempre estamos um pouco acima, no incentivo à cultura. Apesar de ser importante destacar isso, também destacamos que nunca é suficiente e é preciso melhorar sempre. Por isso, apesar do destaque, o Ceará tem suas fissuras, seus pontos de avaliação e de melhoria. Mas nacionalmente somos referência, sempre temos uma boa experiência cearense que serve de exemplo para outros estados.
OPINIÃO CE: Com relação ao seu papel na equipe de transição: quais aspectos da cultura nacional você entende que mudaram nesse último governo e qual a sua expectativa de mudanças e melhorias nessa pasta?
XAUÍ PEIXOTO: Não precisa nem de diagnóstico para percebermos que a cultura foi extremamente destruída. É nítida a perversidade com a qual o governo atual trata essa pauta. Quando você analisa mais a fundo, se espanta mais ainda porque houve um desmonte, tanto do discurso quanto da estrutura, que vai desde a estrutura básica, como equipe, até a estrutura política da pasta. O momento atual é um caos nesse aspecto. Contudo, ao mesmo tempo em que é um caos, é um momento de muita animação e esperança. No dia a dia da transição, é possível perceber que todos estão empenhados em realmente mudar, dialogar e escutar, respeitando sempre as divergências. Claro, os artistas e a estrutura cultural do Brasil foram extremamente atacados, mas o setor cultural tem muita gente capacitada para mudar isso. E vamos fazer de tudo para colocar o ministério onde ele merece e deve estar.
OPINIÃO CE: Profissionalmente falando, você está no auge da sua carreira ao participar de um momento tão importante como esse, a transição entre os governos federais. O que o “Xauí da Nike” pensaria se visse onde você chegou hoje?
XAUÍ PEIXOTO: Teve um amigo meu que mandou ‘Quem diria que o Xauí da Nike ia virar o Xauí da Cultura.’ Eu me sinto muito feliz. Esse reconhecimento eu não carrego só. Para mim, fundamentalmente, é continuar não andando só. Quero sempre estar aqui, falando de outros e de outras que têm bons projetos. Tem muita gente boa no Ceará e no Nordeste. Nunca estive sozinho em nenhum momento da minha trajetória. Então, o que eu almejo é uma conquista coletiva da cultura.
