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24 de julho de 2024

Professora cria biblioteca de literatura negra em comunidade quilombola

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Por meio de doações, Sandra Caetano deu vida a um espaço no antigo quarto de seus filhos para atender crianças e jovens de sua localidade

Antonio Rodrigues
Correspondente no Interior do Estado
antonio.rodrigues@opiniaoce.com.br

Biblioteca Itinerante de Literatura Negra Maria Caetano de Oliveira possui mais de 50 exemplares (Foto: Divulgação)

“Mulher negra, mãe de família, amante de sua cultura negra e descendente de africanos com muito orgulho.” É assim que se define a professora Sandra Caetano, 39, graduada em História e que criou em sua comunidade uma biblioteca itinerante voltada a autores da literatura negra.

O projeto, desenvolvido em Conceição dos Caetanos, em Tururu, a 119 quilômetros de Fortaleza, foi iniciado há quatro anos, mas ganhou fôlego com a chegada da pandemia e já atendeu mais de 300 pessoas.

A concepção da biblioteca vem, sobretudo, da trajetória de vida de Sandra. Desde os dez anos, a docente se envolve com o movimento negro a partir de sua mãe adotiva, Maria Caetano de Oliveira, Dona Bibil, matriarca da comunidade que batiza o equipamento cultural. “Ela me levava, e fui crescendo neste sentido de me orgulhar pela minha cor, me identificar como ela”, exalta.

A biblioteca não é fincada em um território qualquer: Conceição do Caetanos foi a primeira comunidade remanescente de quilombo reconhecida pela Fundação Palmares, há 18 anos. Segundo os relatos dos moradores, o ano de fixação no lugar, às margens do rio Mundaú, se deu entre 1884 e 1887, associado à aquisição de terra por Caetano José da Costa, seu fundador.

Até a década de 1950, apenas sua família habitava aquela localidade, mas, com a seca de 1958, houve a migração de muitos cearenses para Fortaleza, que no trajeto foram se reassentando por ali. Com o contato do movimento negro, na década de 1980, iniciou-se o processo de reconhecimento como remanescentes de quilombo, sobretudo pela liderança de Dona Bibil. Burocraticamente, o processo foi iniciado em 1998 e a certificação aconteceu em 2004.

“Resolvi colocar o nome dela [na biblioteca], porque é uma pessoa para ser homenageada em vida. Ela que me ajudou a me identificar como mulher negra”, reconhece.

PERPETUANDO A ARTE
Perpetuando esse trabalho de sua mãe, Sandra se acostumou a compor grupos sociais e ser uma das articuladoras da comunicação da história de sua comunidade. Foi assim que, enquanto lavava roupa nas margens do rio Mundaú, teve a ideia de criar a biblioteca. “Pelos meus ancestrais, os pensamentos sempre surgem durante a lavagem de roupa no rio. Foi justamente assim”, lembra.

A biblioteca foi instalada, a princípio, dividindo o espaço com a sala de estar. Na pandemia, em caráter de ampliação, ocupou o antigo quarto de seus filhos Saulo, de 11 anos, e o caçula Saymon, de 5 anos, que abraçaram o projeto da mãe. “Hoje, os meninos dormem comigo, mas só querem viver lá.”

Seu objetivo é levar, principalmente para as crianças e jovens, autores e escritores da literatura negra “que são esquecidos”, pontua. A pandemia foi um despertar, ainda maior, onde conseguiu doações de livros com pessoas e entidades parceiras. “A história africana e afrobrasileira é riquíssima. Por isso, é importante ter esse instrumento para trabalhar com as crianças. Elas são o futuro. Sabia que seria um desafio, mas percebi que está sendo uma coisa nova. Eu, como educadora, conhecia muito pouco os autores negros. Então, só reforça a importância.”

A biblioteca é aberta de segunda à sexta-feira, das 7 às 11 horas, para a comunidade local, e aos sábados, das 7 às 12 horas, para pessoas de outras localidades, por meio de agendamento. Os contatos são (85) 981077236 e sandraquilombola05@gmail.com.

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