Por Arnaldo Santos
Jornalista, sociólogo e doutor em Ciências Políticas
Quando pensamos em utopia, erroneamente tal nos remete à ideia de algo dissociado do mundo real, impossível de se realizar, quando, na verdade, são as utopias que nos movem no sentido da organização de uma sociedade em escala global mais qualificada e menos desigual, tornando o mundo melhor.
Contemplando o Brasil, desde a redemocratização, nossa última considerável utopia, este país vive a esperança e a emergência do surgimento de líderes capazes de conduzir o Estado-nação a um realismo político estruturado em governos e governantes que se exprimam como operadores de bens públicos e valores sociais, especialmente para os mais pobres, na demanda por lograrem a redução da pobreza e das desigualdades, o que, sob o prisma coletivo, deve ser a utopia de qualquer sociedade pretensamente moderna.
Os resultados até aqui, por quaisquer ângulos que se tencionem examinar, evidenciam um acúmulo de sucessivos fracassos a cada eleição. E, na perspectiva da emersão de outra cultura política, sob certos aspectos, a percepção é de que se deu um agudo retrocesso. Como em todas as atividades humanas, a política é a que dialoga transversalmente com a história, a cultura dos povos, as artes e as demais ciências, tudo isso incidindo em um malogro ainda mais intenso.
Sendo assim, procede esta indagação: o que fizemos com o nosso voto? Nas mais de três décadas de democracia, o mais longevo período democrático da nossa história pátria, com eleições a cada dois anos, a realidade observada denuncia, objetivamente, sejamos verdadeiros, escolhas equívocas, o que nos impediu de erigir, ao longo desse tempo, um novo realismo político, formado por cidadãos de ambos os sexos, de perfil ético, caráter moral e político, prontificados a realmente nos representar.
Essa verdade impõe-nos urgente e inadiável autocrítica, para admitir que falhamos! A culpa pelo empobrecimento e pela mediocrização da política é do povo, posto como sociedade. Não resulta ocioso reiterar a interrogação: coletivamente, o que fizemos com o nosso voto?
Até imaginamos qual seja a resposta dos “pretensos letrados e politizados”, pertencentes a uma elite “politicamente ignorante, culturalmente analfabeta e socialmente insensível”.
Ao se reafirmarem a arrogância e o elitismo excludente, dirão eles: “a culpa é do povo pobre e analfabeto, que não sabe votar” e que “vende o voto por uma dentadura, uma saca de cimento e alguns poucos tijolos e telhas”.
Na perspectiva de que é inadiável proceder a autoexames sobre as escolhas efetivadas nos últimos quase 40 anos de eleições consecutivas, para entendermos o porquê de havermos chegado a essa realidade tão caótica na política brasileira, mostra-se necessário conduzir para esse panorama real a responsabilidade daqueles que historicamente financiaram as campanhas políticas. Reportamo-nos àquelas resultantes na eleição dos que hoje exercem mandatos, especialmente nas duas Casas do Congresso Nacional, onde há décadas fincaram raízes as várias oligarquias de feições econômicas, rurais, evangélicas e da bala, bem como outras com distintas e falaciosas intenções.
Para aprofundar esta reflexão, insere-se o propósito de assegurar que foi com o então sistema de financiamento eleitoral que as várias oligarquias referidas compraram os votos daqueles que são acusados de “não saber votar”.
Enquanto os pobres talvez tenham sido levados a trocar seus votos “por dentaduras, tijolos e sacas de cimento”, os financiadores desse caos venderam os seus por trilhões em subsídios e isenções para o financiamento de seus negócios privados e bilhões em dinheiro a fundo perdido concedidos pelo Estado, destinados a projetos sem qualquer função social, além de contratos superfaturados mediante licitações fraudulentas e outras práticas não republicanas. Aqui tem lugar esta pergunta: em sã consciência, será mesmo que a responsabilidade pela degeneração moral e ética da política é dos “pobres que não sabem votar”?
Visando a entender o realismo ora vivenciado no Brasil, sugerimos ao leitor que mire, mesmo rapidamente, o enredo histórico-político universal, examinando as reflexões de alguns teóricos, primeiramente com suporte no mais emblemático, configurado em Maquiavel, cujo pensamento, expresso no longínquo século XVI, é de uma atualidade impressionante nesses fluentes “tempos estranhos”.
Na dicionarização do “maquiavelismo”, o sistema político exprimido por Nicollò Machiavelli, nome original do pensador italiano, Florença, 03.05.1469; 21.06.1527, na obra O Príncipe, no âmbito de tantas definições, é descrito como “[…] política desprovida de boa-fé, onde os fins justificam os meios”, “de procedimento velhaco, traiçoeiro e pérfido”, dentre outras. Bem perceptível o realismo, prezado leitor?
O Príncipe, pela sua importância e leitura pluralíssima em todo o globo, suscitou entre alguns dos mais renomados pensadores, da Igreja, do teatro, da literatura e de líderes das teorias e especulações do utopismo reflexivo-político, bem como da própria filosofia, as mais diversas, ácidas, verídicas e inexatas opiniões acerca do pensador florentino.
Na concepção de William Shakespeare, em “Henrique IV”, de 1690, Maquiavel é tido como mortífero. Para nunca esquecermos, é preciso registrar que, por aqui, o desgoverno passado deixou morrer 700 mil pessoas por coronavírus, em razão da negligência decorrente da indiferença do então presidente, hoje presidiário. Mais mortífero… impossível! Para o jurista francês Jean Bodin, N.M. foi “[…] um corruptor do Estado”, muito em voga entre “[…] os bajuladores de tiranos”. Será mera coincidência com o que se observou no Reino da Cloroquina?
Já sob a perspectiva de Bertrand Russell, Maquiavel é autor de “[…] um compêndio para gangsters”; admitido como tal, serviria como “manual para os milicianos”, dessas “estranhas” épocas “coléricas” que vivenciamos em tempos pretéritos.
Quando têm curso as trevas políticas, no momento vivenciadas pelas práticas de grande parte dos deputados e senadores, faz-se necessário um esforço coletivo na demanda do farol que ilumine o bom senso, toque o equilíbrio e encontre também a racionalidade política como antídotos aos ácidos corrosivos expelidos pelos aprendizes de tiranos que pretenderam se perpetuar no poder, dando um golpe de Estado.
A propósito, nos relatos de Cícero, contidos no livro V de suas Tusculanas, sobre o reinado de Dionísio I, em Siracusa, uma pequena comuna italiana na Sicília, encontra-se o célebre caso de Dâmocles, um dos “bajuladores do tirano”.
Consta que, certa vez, Dâmocles felicitara “Dionísio pelo seu poder, por suas tropas, pelo brilho de sua sorte e pela magnificência de seu palácio, dizendo que nenhum outro príncipe havia sido tão feliz”. In FEDRO, um dos diálogos de Platão, Diálogos Socráticos, Madri, 1927. O atual presidiário ainda hoje é cultuado pelos vários “Dâmocles” que o seguem, sonhadores de seu retorno ou de um de seus descendentes.
Sem o brilho, as pompas e a força das tropas dos tempos dionisíacos, no recém-implantado Reino da Cloroquina, também são identificáveis vários Dâmocles. Aliás, essa era a precondição para integrar a “corte” de um certo aprendiz de “tirano dos trópicos”, hoje preso para o bem da civilidade e da democracia, adepto de pirotecnias facistoides e bravatas atentatórias aos que se negam à submissa condição do espadachim adulador de Dionísio de Siracusa.
Durante o infame período referido, os três que ousaram se insurgir contra essa circunstância sentiram o golpe dilacerante da afiada “espada” de Dâmocles sobre o pescoço, e vimos suas cabeças serem exibidas em bandejas adornadas pela ignorância do negacionismo e pela prepotência do incapaz que desgovernou o país. Ele, ainda hoje, mesmo na cadeia, cumprindo pena de 27 anos e três meses, prefere se fazer temido no lugar de respeitado.
Nesse “reino”, as mensagens dirigidas à Nação, por entre os farrapos de fardas desbotadas pelo despreparo e pela indisciplina de um certo capitão, bem assim de meia dúzia de generais de pijama que montavam sentinela no poder, igualmente presos, nos envergonharam perante o mundo, além de causarem grande perplexidade quanto ao que ainda possa estar por vir.
É preciso admitir: o alto preço ora pago por nós por essa fatura política é de responsabilidade mais nossa do que daqueles que nos desgovernaram com tendências autoritárias, pois nós é que os elegemos. Tenhamos, então, cuidado! Permaneçamos vigilantes, pois neste ano teremos eleições e seus filhotes nos baterão às portas…
Examinando alguns eventos ocorridos nos tempos da tirania em Siracusa e trazendo-os para os dias de hoje, encontram-se registros de que, após ouvir toda a bajulação, por aqui não foi diferente, especialmente aos finais de semana, nos espaçosos jardins à frente do Palácio, onde o hoje presidiário era tratado como “mito”, um dia “Dionísio, então, perguntou a Dâmocles se não queria provar um pouco daquele fausto, colocando-se em seu lugar, e o fez reclinar-se, coroado, em um leito de ouro, junto a uma mesa com as mais finas iguarias, rodeada por um sem-número de escravas solícitas”.
Alegoricamente, as escravas solícitas aqui estão representadas na figura do “centrão”, com seu séquito composto por dezenas de Dâmocles, a transitar pelos amplos salões do palácio do então Reino da Cloroquina, sentando-se ao derredor dessa mesa repleta de iguarias, como ministérios e altos cargos nas empresas estatais, com seus bilionários orçamentos, a se banquetearem com a voracidade e o apetite das saúvas, também conhecidas como formigas cortadeiras.
Assim como as formigas, que são insetos populares e, na biologia, atingiram o maior grau de organização, também pelos corredores do poder os ilustres convidados, deputados e senadores do “centrão”, são igualmente organizados e reconhecidos por devorarem muito rapidamente os orçamentos públicos à sua disposição, especialmente por meio das emendas parlamentares, agora felizmente controladas pelo diligente ministro Flavio Dino.
Voltando a Siracusa, pelo convite que recebera, segundo relatos de Marco Túlio Cícero, “Dâmocles estava se imaginando o mais afortunado dos homens quando, em meio ao festim, percebeu, por sobre a cabeça, uma espada que Dionísio fizera pendurar ao teto, sustentada por uma simples crina de cavalo”.
O leitor é capaz de imaginar o pavor de Dâmocles ao perceber que aquela enorme e afiada espada seria passível de, a qualquer instante, desabar sobre sua cabeça. O desespero só não foi maior do que aquele sentido por nós no Brasil. Menos o “centrão”, claro!
Mutatis mutandis, assim também foi o pavor sentido por uma Nação que se viu coagida a tomar um remédio sem comprovação científica para o combate ao coronavírus, porquanto sistematicamente desrespeitada e agredida diariamente com palavrões e xingamentos em rede nacional de televisão, pela posição primitiva de um “capita”, também conhecido na comunidade médico-científica como o “senhor cloroquina”, e que agora, mesmo a partir da cadeia onde deverá permanecer por um bom tempo, é o que se espera, ameaça trazer de volta ao governo o filhote de aprendiz de ditador, com o seu séquito de “Dâmocles”!
