Após 16 anos de aliança com o PT no Ceará, o PDT fica fora da composição do Palácio da Abolição, com a vitória de Elmano de Freitas (PT) este ano, nas urnas, e sua consequente diplomação, que aconteceu nesta sexta-feira, 16, na sede do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). O rompimento entre as siglas – originado na indicação do nome do partido para a sucessão do ex-governador Camilo Santana (PT) – inaugura um novo arranjo no Executivo estadual.
Em paralelo, o MDB de Eunício Oliveira volta ao cenário, representado por Jade Romero na Vice-Governadoria. Segundo o cientista político e professor-adjunto do Departamento de Ciências Sociais, da Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Clayton Mendonça, não se trata exatamente de uma nova era do PT, já que o partido esteve representado no Governo Estadual no últimos oito anos. Contudo, o que se testemunha é uma recomposição, na qual o PT, ao lado de antigos e novos aliados, se rearticula no jogo político, aponta.
“É um rearranjo comparado com o que foi nos últimos anos. A gente precisa lembrar também que, antes do rompimento entre Eunício Oliveira e Cid Gomes, o MDB já tinha feito parte desse governo. Então, houve em algum momento um rompimento, quando justamente o Eunício foi candidato ao governo na sucessão do Cid Gomes, mas Cid indicou Camilo em vez de apoiar Eunício. A gente vê agora o MDB voltando com o candidato indicado pelo Camilo. O alcance desses rearranjos, entretanto, a gente vai precisar aguardar um pouco.”
Para a cientista política e socióloga Carla Michele Quaresma, o MDB deve ganhar forte protagonismo ao lado do PT. A também docente não descarta uma possível indicação em uma chapa majoritária nas eleições municipais de Fortaleza em 2023. Segundo a socióloga Carla Michele, a nova composição pode ter reflexos ainda mais destacados na disputa pela Prefeitura de Fortaleza. “Eu acredito que haja um desgaste do PDT e um desgaste pessoal muito grande do prefeito José Sarto [PDT] aqui em Fortaleza, e isso pode fazer com que haja aí uma candidatura do Partido dos Trabalhadores com muito mais chances de sucesso eleitoral”, apontou.
O docente lembra ainda que, apesar da aliança de mais de uma década no Ceará, a relação PT e PDT só se mantinha, até então, a nível estadual. Nas últimas eleições municipais da Capital, bem como em outros anos, os partidos lançaram suas próprias candidaturas. Em 2020, foram representadas por José Sarto e pela ex-prefeita, Luizianne Lins (PT). Na esfera estadual, a expectativa é de que Elmano de Freitas encontre um cenário auspicioso na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). Clayton Mendonça destaca que boa parte dos deputados estaduais eleitos pelo PDT manifestam intenção de compor a base de apoio ao governo Elmano, tido como uma gestão de continuidade.
“Embora tenha havido esse rompimento na campanha para governador, provocado justamente pelo PDT indicar o ex-prefeito Roberto Cláudio [PDT] em vez da reeleição da governadora Izolda, uma parte do PDT não ficou satisfeita com essa decisão” afirma, citando o presidente da Assembleia, Evandro Leitão (PDT), que por várias ocasiões manifestou sua preferência pelo nome de Izolda Cela. Também citando o chefe do Legislativo estadual, o cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da UFC (Lepem-UFC) Cleyton Monte aponta papel importante do PDT nas articulações do governo Elmano.
“É muito difícil a gente conjecturar neste momento que o PDT está fora do governo, porque o PDT está rachado. Então, existem pelo menos dois PDTs, digamos assim, e tem um deles que está dentro do governo. O PDT liderado hoje pelo Evandro Leitão está no governo com tudo.” Carla Michele destaca ainda o papel de Cid Gomes (PDT) nessa articulação. Parlamentares dos dois partidos contam sobretudo com a atuação do senador, que defende a manutenção da aliança.
Durante a campanha, Cid manteve silêncio sobre a disputa para o Governo do Estado na tentativa de restabelecer a proximidade entre os dois partidos. O pedetista fez campanha apenas para Camilo Santana, para o Senado, e o para o irmão, Ciro Gomes (PDT), que concorreu à Presidência. “O principal articulador da campanha de Elmano, o Camilo Santana, manteve-se muito próximo ao senador Cid Gomes. Assim, há uma disposição grande de uma ala do PDT de manter essa boa convivência com o governo”, aponta a socióloga.
“TRÊS VEZES MAIS FORTE”
Elmano, que apregoou o lema Ceará três vezes mais forte ao lado de Camilo e Lula, também fez crescer a expectativa de uma nova fase para o Estado em termos de investimentos. Nos últimos anos, Camilo e Izolda tiveram que lidar com desafios no diálogo com o Palácio do Planalto. A última vez em que o PT esteve no comando do Estado e do Planalto foi há sete anos, e durou pouco mais de um ano – em 2015 e início de 2016, com os governos de Camilo e da ex-presidente Dilma Rousseff.
Logo depois veio o impeachment da petista, e o alinhamento entre o Governo do Estado e o presidente Michel Temer (MDB) não foi dos melhores. O período foi marcado pela aproximação de Camilo com Eunício Oliveira, este à época presidente do Senado. A rixa política foi deixada de lado para ajustar ações para o Ceará. Com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e a recondução de Camilo Santana como governador, a parceria político-administrativa ficou ainda mais difícil. Bolsonaro não facilitou para os governadores de oposição.
“Eu imagino que esse alinhamento político entre os três governos e esse alinhamento de agenda, além dos governantes que aí estão, pode sim redundar talvez em um crescimento dos recursos federais que virão pro Estado em comparação com esses últimos anos”, aponta Clayton Mendonça.
CAMILO SEGUE
A socióloga Carla Michele prevê que um dos desafios de Elmano será manter os bons índices do ex-governador Camilo Santana, que deixou o cargo com avaliação positiva de 78% dos cearenses e se consolidou como a principal liderança política do Estado atualmente. Deste modo, o caráter de continuidade da próxima gestão será, ao mesmo tempo, um facilitador e um desafio.
“Muito provavelmente, Camilo atuará nessa próxima gestão também como espécie de conselheiro, para garantir inclusive que a sua imagem seja preservada. Porque, afinal de contas, o voto de confiança do povo cearense foi dado em virtude dessa participação do ex-governador Camilo na campanha de Elmano de Freitas. Acredito até que para grande parte do eleitorado o voto tenha sido destinado ao Camilo Santana”, aponta.
Apesar da influência de Camilo, Elmano tem suas particularidades. Ao longo de sua vida pública, o político sempre esteve mais ligado aos quadros de esquerda no espectro político/ideológico e em oposição aos Ferreira Gomes.
“Elmano é o mais próximo de uma esquerda dita raiz. Vou usar essa expressão para designar esses quadros mais tradicionais do Partido dos Trabalhadores, como a ex-prefeita Luizianne Lins. Já o Camilo sempre foi muito mais identificado com o Cid e Ciro no Ceará, assim como a Izolda Cela”, destaca ainda a socióloga.
Segundo Carla Michele, no entanto, Elmano adequou o seu discurso durante a campanha eleitoral para dialogar com setores econômicos. “Não vi durante o período eleitoral um discurso de uma esquerda mais raiz, um discurso de uma esquerda mais estatizante. Ele falou muito durante o processo eleitoral nessa relação com a iniciativa privada, para promoção de grandes investimentos no Ceará, buscou essa proximidade com a Federação da Indústria, com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL). Acredito que haja esse alinhamento aí com o setor privado da economia. É uma esquerda mais ao centro.”
Para Cleyton Monte, o que se pode esperar é um governo de conciliação, tendo em vista a frente que foi formada já durante o período eleitoral. “Formou-se uma frente com a participação dos mais diferentes partidos. Você tinha do PSOL ao PP ao PCdoB. Então, é muito difícil rotular essa frente de uma frente de esquerda. No máximo, a gente pode chamar de centro de centro. As mais diferentes correntes ideológicas foram abraçadas pelo futuro governador.”
