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Discurso de Bolsonaro na ONU fala de um Brasil que não existe, afirmam juristas

Presidente apresentou perspectivas sociais e ambientais que não condizem com a realidade e usou espaço desviando da finalidade do momento e levando para a perspectiva eleitoral, apontam
Foto: Isac Nóbrega/PR

Tradicionalmente, desde 1955, o chefe da delegação do Brasil é o primeiro governante a discursar na sessão de debates da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O presidente da República, Jair Bolsonaro (PL) seguiu a tradição e abriu a 77ª edição do evento na manhã desta terça-feira, 20.

Bolsonaro, contudo, desfocou dos assuntos internacionais e priorizou temas nacionais, como críticas a Lula (PT), seu principal adversário nas eleições deste ano e com defesas ao seu governo. O OPINIÃO CE ouviu especialistas que analisaram o discurso do também candidato à reeleição, que citaram o erro de foco do presidente, que teria fugido do tema principal do assunto.

O professor de Direito Constitucional e Direitos Humanos, com pós-Doutorado em Direito, Flávio de Leão Bastos Pereira, afirma que “o foro internacional é voltado para a discussão dos principais problemas e temáticas, de ordem internacional. Afinal, as Nações Unidas reúnem os 193 países que a compõem. Porém, foi utilizado pelo presidente brasileiro como palanque eleitoral, o discurso foi claro nesse sentido.”

O professor de Direito Internacional e mestre em Negócios Internacionais Vanilo de Carvalho analisa que “o discurso deste ano segue os últimos discursos de Bolsonaro na ONU, apresentando claramente a tendência ideológica a que ele pertence e luta.

“Em especial, neste ano, tem uma distorção no sentido da eleição, por ser um ano eleitoral. E ele se aproveita desse momento.” Ambos os especialistas também pontuaram que Bolsonaro distorceu fatos buscando defender o seu governo. Vanilo de Carvalho argumenta que Bolsonaro “faz uma incrível distorção de fatos no que diz respeito à insegurança alimentar no Brasil, insiste em uma postura que utilizou na pandemia, que foi um verdadeiro desastre para o nosso país. Basta observar os números comparativos em percentuais de mortes.”

Flávio Bastos critica o discurso e também pontua inverdades citadas pelo presidente. “Foi um discurso pequeno, que não foi compatível com a ocasião. Que nos representa muito mal na comunidade internacional. Além de ter sido inverídico, já que ele pinça um cenário econômico que não parece ser no Brasil. Nós estamos com 33 milhões de pessoas passando fome. Ele cita que dois terços do território brasileiro permanecem em vegetação nativa da mesma forma como o Brasil foi descoberto, em 1500, e isso não é verdade: mais de 92% da Mata Atlântica está destruída, sob a qual foram construídas as cidades brasileiras.”

O mesmo especialista ainda conclui dizendo que “se não fosse o primeiro, o discurso passaria despercebido pela comunidade internacional. Inclusive, a Justiça Eleitoral [JE] tem que acompanhar, uma vez que essa viagem ao Reino Unido foi custeada com dinheiro público e o presidente usou como palanque eleitoral.”

Horas antes de Bolsonaro discursar, críticas contra o presidente foram projetadas na lateral da sede da ONU, em Nova York, nos Estados Unidos. A intervenção, que foi organizada pelo U.S. Network for Democracy in Brazil, chamou o presidente de “Brazilian shame” (“vergonha brasileira”, em tradução livre), além de “mentiroso” e “desgraça.”

Segundo a organização, a projeção foi feita em contraponto ao discurso do candidato à reeleição. “Se Bolsonaro vai usar o prédio da ONU como palanque, nós vamos usá-lo para denunciar esse homem que é uma verdadeira vergonha nacional.”

O termo “Bolsonaro Vergonha Mundial” entrou para os trending topics do Twitterontem, um dia após a hashtag “Bolsonaro World Shame” (Bolsonaro vergonha mundial, em tradução livre) também entrar para os trending topics.

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