Um debate entre candidatos ao governo de São Paulo, realizado na noite desta terça-feira, 13, foi marcado por mais um ataque à jornalista Vera Magalhães. O deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos-SP) abordou a profissional no espaço reservado à imprensa e, com o celular em mãos, acusou falsamente a jornalista de receber R$ 500 mil anuais de salário da TV Cultura.
A própria emissora já havia desmentido a informação, e divulgou o valor de R$ 22 mil mensais pagos a apresentadora do programa Roda Viva.
Filmando a cena, Garcia repete várias vezes uma frase dita pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) no debate entre presidenciáveis realizado pela Band, em agosto. Na ocasião, após ser questionado pela profissional, o mandatário a atacou e disse que Vera era “uma vergonha para o jornalismo brasileiro”. A jornalista também começa a filmá-lo, até que uma terceira pessoa, o diretor de redação da TV Cultura, Leão Serva, toma o celular do parlamentar. Segundo Leão, que se manifestou por vídeo após o ocorrido, o parlamentar já tem “uma prática de perseguição” contra Vera.
Confira o vídeo:
👍🏻👍🏻👍🏻👍🏻 pic.twitter.com/KWtacmr9q8
— Sam Pancher (@SamPancher) September 14, 2022
Mais tarde, Vera publicou um vídeo nas redes sociais em que acusa o deputado de tentar intimidá-la durante o evento.
Veja o momento da agressão:
Gostaria de saber se o candidato @tarcisiogdf concorda com a postura de seu convidado para o debate. Eu estava trabalhando. Sentada, quieta, sozinha. É esse o tipo de aliado técnico que o senhor terá em SP, candidato? Isso está correto? pic.twitter.com/JBIAgfpulO
— Vera Magalhães (@veramagalhaes) September 14, 2022
“Ele veio mentir novamente, me acossar, me intimidar, achar que com isso vai me calar, vai me deixar ter medo. Isso não é aceitável. O Brasil é uma democracia. Uma democracia pressupõe imprensa livre”, afirmou Magalhães.
A jornalista também lembrou da pergunta feita ao candidato Ciro Gomes no outro debate, em que o presidente teria aproveitado para, segundo ela, a agredir: “Desde então, eu estou sofrendo ataques violentos e virulentos de uma base do bolsonarista autorizada pelo presidente da República. Porque ele me atacou, e essa base se sente autorizada a repetir os ataques”.
Confira:
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Ambos afirmaram ter registrado boletim de ocorrência pela situação. “Isso não é aceitável. Isso não configura democracia. Eu tive que sair escoltada por seguranças do Memorial da América Latina. Ele poderia ter me agredido. Não percebi quando ele, de maneira sorrateira e covarde, se aproximou de uma mulher para fazer isso”, acusou a jornalista.
“Questionei a Vera Magalhães sobre o contrato com a TV Cultura, ela perdeu a linha e chamou os seguranças”, apontou o deputado. “A Vera Magalhães está espalhando por aí que eu a agredi. Isso é mentira. Eu vou processar ela e quem divulgar isso por calúnia! Eu apenas a questionei educadamente, mas ela e seus amigos reagiram com agressividade”, postou Garcia em outra publicação.
Tarcísio de Freitas, candidato ao governo de São Paulo e apoiado por Garcia, também se manifestou nas redes sociais e disse repudiar a agressão sofrida pela jornalista.
Lamento profundamente e repudio veementemente a agressão sofrida pela jornalista @veramagalhaes enquanto exercia sua função de jornalista durante o debate de hoje. Essa é uma atitude incompatível c/ a democracia e não condiz c/ o que defendemos em relação ao trabalho da imprensa.
— Tarcísio Gomes de Freitas (@tarcisiogdf) September 14, 2022
O deputado publicou um vídeo nas redes sociais anunciando ter registrado boletim de ocorrência e negando ter agredido a profissional. Ele afirma que apenas tentou questioná-la sobre o salário recebido por ela. Ele volta a atacar a imprensa e diz que está lidando com uma “classe jornalística militante” e reafirma as ofensas contra Magalhães.
Sete processos na Alesp
O deputado estadual já foi alvo de sete processos por quebra de decoro parlamentar nos últimos quatro anos de mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo. Três deles ainda tramitam na Casa Legislativa, todos sobre o mesmo tema.
Nas representações, Garcia é acusado de ter produzido e divulgado um “dossiê contra antifascistas”. O parlamentar chegou a ser condenado em fevereiro deste ano em segunda instância na Justiça Paulista, mas a decisão ainda cabe recurso.
Os três processos no conselho de ética da Alesp estão parados. O relator dos casos é o deputado Wellington Moura, do mesmo partido de Garcia, o Republicanos.
Em outros dois processos na Casa, o bolsonarista foi acusado de quebra de decoro por ter ofendido professores que protestavam contra a reforma da Previdência estadual e ter feito declaração discriminatório sobre transexuais. Nesses casos, ele foi apenas advertido.
Outras duas representações contra ele foram arquivadas. Uma delas, apresentada por parlamentares petistas, acusavam o deputado de realizar evento na Alesp para dfender a ditadura militar, incluindo falas de apologia à tortura. A segunda, de uma deputada do PSol, aponta que Garcia afirmou que pessoas trans são “homens que se acham mulher”.
Após os ataques a Vera na terça, o parlamentar deve ser alvo de novas representações. Ele mesmo já anunciou nas redes sociais que recebe “com tranquilidade” mais uma representação do PT.
https://twitter.com/DouglasGarcia/status/1570089692091060226
