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17 de junho de 2024

Parricídio, condição humana e tristeza coletiva

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Em seu livro, “Vigiar e Punir” Foucault narra uma execução pública no século XVIII, quando Damiens, acusado de parricídio, ato de uma pessoa matar seu próprio pai ou pais, foi obrigado a pedir perdão publicamente na principal praça da cidade de Paris sobre um patíbulo. Depois ele foi erguido, “atenazado nos mamilos, braços, coxas e pernas e sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre”. A execução pública exemplar diante da população, à época, fazia parte de um ritual e servia, além do controle, de manutenção e perpetuação do poder instituído pela monarquia absolutista e da igreja.

Mas, em plena manhã de segunda, dia 20, saber de um crime de parricídio na cidade de São Paulo, por intermédio de duas amigas coordenadoras de uma escola, em pleno século XXI é de causar reflexões e tristeza coletiva a respeito de nossa condição humana. Segundo as mídias: “O adolescente de 16 anos assassinou o pai a mãe e a irmã, e não mostrou arrependimento”. Estranha a informação dada de que o adolescente teria se espantado e ficado surpreso ao saber que seria preso. Segundo o delegado do caso, “A gente não sabe se ele estava fora da realidade com relação à apreensão ou pode ser que ele tenha considerado que é um adolescente”.

Na noite de domingo, o adolescente demonstrando frieza ligou à polícia afirmando ter matado os familiares usando a arma do pai, um Guarda Civil Municipal da cidade de Jundiaí. Evidente que a punição de parricídio no século XXI não é e nem poderia ser a mesma do século XVIII.  Todavia, nos assusta a explicação dada pelo adolescente sobre a motivação do crime: “porque estava com raiva dos meus pais, por eles terem tomado meu celular”. No processo educativo no seio familiar e nem no letramento da escola, parece que ele não entendeu que adolescentes têm direitos e deveres e que existe uma ética e moral social.

Todos sabemos, por médicos, psicólogos, livros, professores, documentários, reportagens etc, dos vários distúrbios psiquiátricos mais comuns entre as crianças e os adolescentes e transtornos como autismo, TDAH, TOD etc. O aumento dos transtornos mentais em crianças e jovens hiperconectados é uma realidade que preocupa a todos. Parece que as crianças e jovens do mundo todo estão em perigo.

O psicólogo social e escritor Jonathan Haidt, em seu livro “A Geração Ansiosa”, estudou durante décadas a saúde mental dos jovens, principalmente desde a criação dos smartphones. Ele revela que há uma espécie do colapso da saúde mental entre os jovens. Segundo o autor: “Em 2010, os adolescentes tinham telefones apenas para fazerem ligações, se encontravam mais com outras crianças e se divertiam mais. Mas, em 2015 tudo mudou, eles trocaram o celular comum por smartphones com câmera e internet, e as crianças passaram a tem uma infância com efeitos na vida social e no desenvolvimento cognitivo”.

Haidt lista ainda dois erros que os adultos cometeram e cometem: mantêm os filhos superprotegidos da vida real e ao mesmo tempo, na vida online, os jovens ficaram totalmente desprotegidos. Como já alertava Sérgio Buarque, em seu livro “Raízes do Brasil”, superprotegidos da vida real, sem autonomia, inseguros e imaturos, as “boas mães” acabavam criando psicopatas. Além dos pais, dá para imaginar o desespero de educadores, professores e escolas!

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