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24 de julho de 2024

Opinião: “A volta da festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha”

Por Antonio Rodrigues, correspondente do OPINIÃO CE no interior do Estado.
Foto: Divulgação/Governo do Estado

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O corte do pau da bandeira de Santo Antônio, em Barbalha, na última sexta-feira (13), no Sítio Joaquim, confirmou o retorno do cortejo após dois anos. Um tronco de angico de 28 metros vai servir como mastro para hastear o símbolo do padroeiro, no próximo dia 29, marcando o início de uma das festas mais tradicionais do Ceará.

Após derrubado, o pau “dormirá” pelos próximos dias para perder líquido e ficar mais leve, antes de ser colocado nos ombros de aproximadamente 250 homens — prática que teve início em 1928 e só foi interrompida pela pandemia da Covid-19. De tão simbólica, é reconhecida como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), desde 2015.

A passagem do pau da bandeira pela Rua do Vidéo, que concentra o maior número de visitantes, enxergo como um de seus momentos mais marcantes. Milhares de pessoas se espremem, enquanto a mastro de aproximadamente duas toneladas é carregado por dezenas de homens, os “carregadores”.

Durante o percurso, o cansaço os faz soltar a árvore no chão. É neste momento que a multidão rompe o cordão de isolamento e lutam para tocar no pau. O folclore diz que alcançar o tronco leva ao altar em breve. Os próprios carregadores entregam as lascas para os brincantes.

A rotina no mais aguardado domingo da terra dos “Verdes Canaviais” é diferente para alguns barbalhenses. Sandra anualmente pinta a imagem de Santo Antônio na bandeira e entrega cedinho para João Victor, que fica responsável pelo símbolo até ser erguida na Igreja Matriz. Tarefa que herdou após seu pai, Zé Custódio, falecer.

Já George Pintor se levanta, há mais 20 anos, por volta de uma hora da manhã, para preparar o transporte do pau do Sítio Roncador até o Centro Histórico. Com dores no joelho, traz consigo as marcas deste sacrifício em nome da fé no padroeiro. A mobilidade do dedo do pé também é limitada desde que sofreu uma fratura quando o mastro o atingiu.

As cicatrizes entre os carregadores não param em George, mas nenhuma é maior que a morte de Cícero Ricarte, o “Careca”, que faleceu em 2015 durante o pelejante ofício. A poucos metros da Igreja Matriz, foi esmagado pelo próprio tronco que carregava junto com seus companheiros. Em sua memória, os colegas oram no local do acidente durante a passagem do mastro.

George, Erivan, Roberto Maguila, Rildo, Cristóvão, Valmir, Osmir, Tiaguinho, Junior Nilo, João Victor, Salomão Veloso, Zé Custódio, Toni Sousa, entre tantos outros. São nomes, energias e devotos. Herdeiros que mantêm a quase centenária paixão existir.

O pau de bandeira deste ano será único para os carregadores. A lama no corpo e a gota de suor que cai nas ruas serão novamente sinônimos de dever cumprido. Aos que acompanharão e viverão intensamente este itinerário: experimente como se fosse o primeiro e aproveite como se estivesse no último.

Texto de Antonio Rodrigues, correspondente do OPINIÃO CE.

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