O bioma Caatinga, único exclusivamente brasileiro e presente majoritariamente no Nordeste, voltou ao centro dos debates ambientais durante a COP30, realizada em Belém (PA), e o Ceará tem buscado protagonismo nessa agenda por meio da estratégia de Recaatingamento.
A iniciativa, que integra políticas estaduais e discussões regionais do Consórcio Nordeste, propõe uma mudança estrutural na forma como o bioma é protegido, recuperado e integrado ao desenvolvimento socioeconômico.
Em entrevista exclusiva ao Opinião CE, Luciana Barreira, procuradora da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) e coordenadora do Grupo de Trabalho de Recaatingamento do Estado, explica que a proposta surge da urgência em recolocar a Caatinga no centro das políticas ambientais, destacando seu potencial de captura de carbono, sua importância para mitigação e adaptação climática e sua capacidade única de regeneração.
“O recatingamento é fundamental para atrair financiamento climático e subsidiar ações concretas de proteção e recuperação do bioma”, afirmou.
O que é o Recaatingamento?
O termo define um conjunto de ações de reabilitação ecológica, gestão sustentável do território e promoção da convivência com o semiárido, conectando restauração ambiental e desenvolvimento humano. Na prática, não se trata apenas de reflorestamento, mas de uma metodologia que integra práticas agroecológicas, fortalecimento da agricultura familiar e uso responsável dos recursos naturais.

Segundo Luciana Barreira, o Recatingamento tem como premissa aproximar a conservação ambiental da produção de alimentos.
“Buscamos aliar a proteção do bioma à produção agrícola sustentável. A Caatinga abriga cerca de 32 milhões de pessoas, e precisamos garantir segurança alimentar ao mesmo tempo em que preservamos a base de vida dessas comunidades”, explica.
Recuperação ambiental atrelada à economia e inclusão social
A estratégia também mira a transformação econômica do semiárido. O modelo estimula sistemas produtivos de baixo impacto, geração de renda em comunidades rurais e práticas que tornem a região mais resiliente às mudanças climáticas. Isso inclui manejo sustentável, uso de tecnologias limpas e incentivos para cadeias produtivas que dependem de recursos do bioma sem o degradar.
“A ideia é promover a recuperação das áreas degradadas e fortalecer a agricultura sustentável, permitindo que as famílias rurais produzam alimentos de forma saudável enquanto protegem suas terras”, reforça a coordenadora.
Luciana destaca ainda o papel do Consórcio Nordeste, que tem colocado a Caatinga como prioridade conjunta dos estados. A articulação envolve desde a busca por novas fontes de financiamento climático até a construção de políticas compartilhadas de economia sustentável, apoio à agricultura familiar e transição energética justa.

“Essa união é essencial para avançarmos em políticas públicas que protejam e recuperem o bioma. A Caatinga é estratégica para a integridade climática do planeta, e precisamos tratá-la como tal”, afirma.
Um bioma crucial para o clima global
Apesar de historicamente subvalorizada, a Caatinga possui elevada capacidade de estocar carbono e apresenta adaptação única às condições do semiárido. Com o recatingamento, o Ceará pretende impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento que una valorização ambiental, inclusão social e inovação produtiva, reafirmando o papel estratégico da Caatinga no futuro do País e do planeta.

