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16 de julho de 2024

O imenso e plural universo de amar como mãe e receber um amor de filha

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Encerrando o Mês das Mães, o OPINIÃO CE traz histórias de construções familiares que extrapolam a configuração tradicional. Psicólogas comentam

Giovana Brito
ESPECIAL PARA OPINIÃO CE
giovana.brito@opiniaoce.com.br

Laura Lorrane, de 21 anos, relembra como foi resgatada, aos 7 anos, pela avó Maria Marli Peixoto, que faleceu. Na foto, Laura demonstra como mata a saudade de mais uma mãe que a vida lhe deu (Fotos: Natinho Rodrigues)

As pessoas lutam para que se mantenham laços, e, às vezes, para que se fortaleçam. O modelo de família ideal das propagandas de margarina, com a presença de todos à mesa, com farta disposição de café da manhã, não refletem os traços da realidade atual.

O real se desdobra, busca alcançar novos objetivos, sobretudo quando pensando nas abdicações que os pais fazem pelos filhos. O que todos têm em comum é almejar algum tipo de afeto.

Para a Psicologia, a afetividade é a capacidade do ser humano de experimentar tendências, emoções, paixões e sentimentos. É através do afeto que revelamos os nossos sentimentos e criamos laços de convivência e esta se inicia com o amor maternal.

“Quando falo de maternidade, não falo da pessoa que desenvolve, mas da função que ela desenvolve. Para a psicanálise, chamamos de função materna e função paterna. Quem vai desenvolver essas funções na vida do sujeito da criança não interessa tanto quanto a importância que essa função tem pra aquele que vai se desenvolver, explica a psicóloga Thalyta Almeida.

“Existem crianças que são adotadas, crianças que são cuidadas pelos avós, pelos tios, por duas mães, dois pais, porque não existe família de fato tradicional. O que existe é a importância do desenvolvimento das funções”, complementa. O vínculo maternal é buscado instintivamente pela criança, mas não se restringe apenas àquela que gera. O desenvolvimento do senso de maternidade tem grande amplitude. Levando em consideração que mães não são seres perfeitos, muito menos possuem superpoderes.

DENTRO DO BERÇO FAMILIAR
Há aqueles que se unem com os mesmos objetivos, exercendo as funções maternas e funções paternas. Muitas das formas atuais de interação social entre adultos e crianças iniciaram no passado, elucida a socióloga Andrea Borges. “No curso do desenvolvimento social, uma balança de poder familiar pendeu mais para a autoridade absoluta dos adultos sobre as crianças. Não foram raros os fenômenos de abandono e infanticídio, no mundo antigo.”

“Os filósofos explicam que os controles sociais e autocontroles ergueram barreiras mútuas nas relações entre pais e filhos. Hoje, as relações entre mães, pais e filhos são mais igualitárias por causa da mudança na função emocional que as crianças cumprem para os adultos”, complementa a socióloga.

Joana Torres foi criada pela avó, Sulamita Torres, em razão da mãe sair para trabalhar no período noturno e assim as duas poderem fazer companhia a outra. A rede de apoio atua como o primeiro porto de chamada quando há grandes eventos, ou em situações de necessidade. Joana optou por continuar morando com os avós por já estar adaptada a rotina com eles, mesmo depois da adolescência.

“Ter sido criada pelos meus avós foi muito bom. Minha vó é artista e dona de casa então a criatividade e esforço dela foram minha inspiração. Ela é bem tranquila, então sempre fui livre de cobranças, até porque ela já não tinha mais tanta idade para se cansar comigo. Hoje somos só nós duas porque meu avô faleceu, mas ele também esteve presente com um papel mais rígido na nossa relação. Acabei criando os mesmo hábitos e gostos dos dois”, disse.

A aposentada acolheu a neta, graduanda em Arquitetura e Urbanismo, e as duas mantêm uma relação de companheirismo. “Por meio de uma criação mais livre, sempre fiz o que queria mesmo tendo a desaprovação. O medo era só desapontar, nenhuma consequência além disso. O que me tornou mais independente.”

A IMPORTÂNCIA DE UM LAR SAUDÁVEL
Quando não há afeto na relação familiar, é possível que o indivíduo sinta-se solitário e abandonado. Inclusive, quando acontecem na infância, a falta de afeto pode deixar marcas para o resto da vida e a situação pode ser ainda pior quando é sofrido algum tipo de violência. Laura Lorrane, de 21 anos, relembra como foi resgatada, aos 7 anos, pela avó Maria Marli Peixoto que lhe ofereceu não apenas um lar, mas o amor que até então desconhecia.

“Até os 7 anos, as minhas lembranças são cicatrizes, de momentos que me assombram até hoje. Negligência, abuso sexual, exposição a álcool, drogas e violência e muito medo. Tudo mudou quando fui morar com minha avó, a partir desse momento minhas lembranças são de carinho, cuidado, proteção, amor verdadeiro, sabe?”, relata. A família de Laura até hoje não sabe o que lhe aconteceu na infância.

Os crimes cometidos contra crianças são alarmantes. Dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos indicam que este ano já foram registradas 4.486 denúncias de violações de direitos humanos contra crianças e adolescentes ligados a situações de violência sexual. Entre janeiro e dezembro de 2021, houve 18.681 registros contabilizados entre as denúncias recebidas pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, o equivalente a 18,6% dos relatos.

O levantamento do ano passado indicou que o cenário da violação que aparece com maior frequência nas denúncias é a residência da vítima e do suspeito (8.494), a casa da vítima (3.330) e a casa do suspeito (3.098). O dia 18 de maio é marcado como Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes.

Oferecer a crianças um lar apropriado, com direito às necessidades básicas como alimentação, habitação e escola consta na Constituição Brasileira e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Laura buscou na avó o amparo e acolhimento que procurava e foi recebida com muito zelo pelo companheiro da mesma. Mesmo após o falecimento da avó, em 2021, a família que foi construída permaneceu.

“Minha avó conheceu o companheiro dela, Raimundo, e contou abertamente que queria me levar pra morar com ela, e ele mesmo já criando minha irmã, abriu os braços pra mim e me aceitou. Aos 7 anos eu tive uma família. E hoje minha relação com ele é linda, ele é minha família, e depois da morte da “i” [Maria Marli], essa relação ficou ainda mais forte porque em 14 anos, ficamos nós dois com lembranças lindas dela.”

O vínculo afetivo entre o cuidador e a pessoa cuidada deixam características e marcas profundas, até mesmo quando um deles se vai. Quando um filho conhece a dor de perder uma mãe, ele sente que precisará moldar novamente toda a sua vida. “O processo de luto é um lugar de adaptação psíquica onde a pessoa vai experienciar a perda. Sempre que falamos de perda, necessariamente estamos falando também de onde a pessoa vai assimilar essa nova experiência de vida. Vai começar a lidar com a falta, com aquilo que era e hoje não é mais”, explica Thalyta.

“Eu sinto um amor inexplicável é uma gratidão imensa por ter a oportunidade e o privilégio de ter ela comigo por tantos anos, pela vida que ela me proporcionou, pelo amor e cuidado que me deu, até então eu não conhecia o amor, eu não tinha isso. Admiração pela pessoa que ela era por mim e pelas dificuldades que ela enfrentou pra me dar a vida que tive enquanto estava ao meu lado. Ela sempre me passou muita força, me ensinou a ser forte, determinada e a não desistir. Ela me fez ter um motivo pra querer seguir em frente sem nem saber os motivos que me assombravam. Ela me fez ter fé em mim”, contou Laura que também perdeu a mãe que a criou.

PARA SEMPRE
Como repórter deste conteúdo e filha que perdeu uma das mães cedo demais, penso no vazio que a tia minha tia, Leidiane Gomes, que me criou por tantos anos, me deixou. A pandemia tornou muitos filhos órfãos, deixou casas silenciosas e luzes acesas como uma memória. A dor de perder uma mãe nos deixa pequenos e vulneráveis: é imensa e arranca um pedaço invisível de dentro da gente.

Mas ainda assim é possível agradecer. Sem todos os livros que a tia Leidiane me deu como forma de incentivo a minha criatividade, você leitor não estaria lendo essa reportagem. É importante pensar em reconstrução. Guardar as memórias das palavras de conforto quando algo dava errado e do sorriso no rosto e os olhos lacrimejados quando dava certo. Nós nos mantemos assim, os filhos de coração partido.

 

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