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17 de junho de 2024

O consolo das borboletas

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*A arte é de autoria da ilustradora autodidata cearense Luciana Braga. Professora, pesquisadora, escritora e desenhista. Autora e ilustradora do livro Escrita Infinita. Suas páginas no instagram são @luciana_braga7 e @escrita.infinita

Tenho dormido pouco. Comemoro quando consigo adormecer por mais de cinco horas seguidas. A sensação ao abrir os olhos não é de energia, nem de disposição. Parece que fui atropelada por um caminhão. Não, eu não tenho insônia. 

Olho o celular ao lado, que me acordou, checo o horário. Sento na cama, olho para o meu filho mais novo que dorme comigo. Tenho 20 minutos para me arrumar e colocar ele para ir para a escola. Amarro o cabelo, chamo o menino. Cada um vai se ajeitando em um quarto.

Começo aquele check-list: escovou os dentes? penteou o cabelo? passou perfume? calçou o sapato? colocou a roupa e o lanche na bolsa? 

Olhamos para a janela, as plantas estão murchando. Pena que eu não tenho a mão boa para a jardinagem que nem minha mãe. No apartamento em frente, uma gata siamesa exibe a barriga sedutora no meio das roupas penduradas na grade. A gente se pergunta: será se o gato da vizinha de baixo já notou essa possível namorada?

Saímos correndo, tomamos café no caminho. Ao deixar meu filho mais novo na escola, eu me pergunto se essa escuridão vai ter fim. Parece que estou no meio de uma tempestade de novo. As calmarias são raras. 

Me afogo em lágrimas, a raiva me toma. Bebo água na escola em que ele estuda, me acalmo, sigo para a passarela imunda, atravesso a rodovia. Nos fones, Gal Costa me diz que a pele do futuro, cicatrizada, será imune ao corte e à lâmina do tempo. Aguardo isso há meses. Parece que essa ferida não sara. Continuo em carne viva.

Sigo tentando me acalmar enquanto um rio corre pelos meus olhos. Chego no Centro. Mais um ônibus me leva para o destino final. Talvez os passageiros tenham se assustado com meu rosto vermelho e molhado. Lembro dos olhos assustados que cruzaram com os meus enquanto eu atravessava o vão para a porta do transporte. 

Desço e noto a mesma borboleta monarca de ontem de manhã que, tranquila, beijava as flores do flamboyant do discreto jardim da repartição. Ela também estava por aqui na tarde de ontem. Outra borboleta dessas atravessou a rodovia comigo outro dia e mais uma descansava na tela da passarela, enquanto eu andava rápido, perdida em pensamentos. 

Se eu não tivesse acompanhado a metamorfose de cinco borboletas dessas na minha casa, talvez isso passasse despercebido. Vou interpretar como mais um consolo nesse caminho dolorido dos últimos tempos. 

Antes de voarem, elas ficam no casulo escuro por mais de uma semana. Para saírem do casulo, sangram. Então, um dia, isso passa. Tudo é vário, temporário, efêmero, como disse Chico Buarque. Não há dor que dure para sempre.

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