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IA transforma saber dos profetas da chuva em ferramenta para medir a saúde ambiental

Ostras, abelhas, morcegos e árvores serão monitorados para criar índice capaz de medir a saúde ecológica das cidades
A partir das observações dos profetas da chuva, de sinais emitidos por diferentes espécies da fauna e da flora, pesquisadores brasileiros desenvolvem um projeto que pretende utilizar inteligência artificial para traduzir informações da natureza e medir o nível de saúde ambiental das cidades. Foto: Rayane Mainara/Ascom Cagece

O conhecimento tradicional dos chamados profetas da chuva, tão presente no Sertão nordestino, pode ganhar uma nova dimensão com o apoio da tecnologia.

A partir da observação de sinais emitidos por diferentes espécies da fauna e da flora, pesquisadores brasileiros desenvolvem um projeto que pretende utilizar inteligência artificial para traduzir informações da natureza e medir o nível de saúde ambiental das cidades.

A inspiração surge de personagens como Renato Lino, 78, morador de Quixadá, no Sertão Central do Ceará. Reconhecido como profeta da chuva, ele aprendeu com o pai a interpretar sinais naturais para prever o comportamento climático.

“É a catingueira que descasca, é a casinha da maria-de-barro, é o angico e muitas coisas que a gente observa”, explica Renato Lino.

Décadas de observação permitiram a Renato Lino reunir conhecimentos sobre árvores, aves e outros elementos do ecossistema.

Entre os indícios avaliados está a posição da entrada do ninho da maria-de-barro (Furnarius furnarius), considerada por ele um dos indicativos de períodos chuvosos no sertão. “Tudo isso é coisa que a gente vai ajuntando, vai anotando”, resume.

TRADUÇÃO DIGITAL

Recife, capital de Pernambuco, será a primeira cidade a receber a iniciativa, batizada de Apeiron, palavra de origem grega que significa ilimitado. A proposta pretende criar uma espécie de tradutor digital dos sinais emitidos pelos seres vivos.

A condução do projeto ficará a cargo do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

De acordo com o biólogo e pesquisador Artur Maia, do Departamento de Botânica da UFPE, a proposta funciona como uma espécie de Babel reversa, permitindo interpretar respostas biológicas que normalmente passam despercebidas.

“As respostas metabólicas são particulares de cada organismo, mas muitas vezes isso não é utilizado como informação, simplesmente porque a gente não consegue entender aquela língua”, afirma o cientista.

Sensores e equipamentos serão utilizados para monitorar diferentes espécies presentes no ambiente urbano, entre elas morcegos, ostras, abelhas e aroeiras.

A comparação dos dados coletados na capital pernambucana será feita com registros obtidos em áreas de menor impacto humano, como a Reserva Ambiental de Saltinho e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe, no Litoral Sul de Pernambuco.

ESPÉCIES-MONITORAS

Entre os organismos acompanhados estarão as ostras, cuja frequência de abertura das conchas pode indicar condições desfavoráveis do ambiente.

“As ostras tendem a abrir com menor frequência em condições adversas. Elas reduzem a filtração e ficam sem se alimentar para evitar o acúmulo de metais pesados e outras substâncias”, explica Artur Maia.

Fatores como a transpiração das aroeiras, o comportamento de voo das abelhas e os sons emitidos por morcegos também estarão entre os elementos analisados.

Foto: Jennifer Barrros/ Ascom ICMBio

A intenção dos pesquisadores é medir o nível de esforço biológico realizado por cada espécie para sobreviver em determinado ambiente.

“Eu quero verificar o quanto aquele organismo está se esforçando para sobreviver naquele ambiente”, destaca o pesquisador.

ÍNDICE AMBIENTAL

O objetivo final da iniciativa é criar o chamado Índice de Resiliência Metabólica (IRM), um indicador que permitirá avaliar a qualidade ambiental de diferentes regiões urbanas.

A proposta reúne informações coletadas de várias espécies para produzir uma escala de 0 a 100, capaz de indicar o nível de equilíbrio ecológico de um território.

“O estresse é uma informação que não pode ser fingida. Essa resposta metabólica existiu, aconteceu. O que a gente quer é juntar o nervosismo da abelha, a movimentação da ostra, a respiração da aroeira e transformar isso em um índice”, explica Artur Maia.

Segundo os estudiosos, a ferramenta poderá servir de apoio para políticas públicas, planejamento urbano e monitoramento ambiental.

SABEDORIA E CIÊNCIA

A mesma lógica utilizada pelos profetas da chuva para transformar observações da natureza em previsões climáticas inspira os cientistas que participam do projeto.

A expectativa é que a inteligência artificial amplie a capacidade humana de compreender os sinais emitidos pelos ecossistemas.

Para Artur Maia, a meta consiste em ajudar gestores públicos a enxergarem as cidades como organismos vivos, capazes de revelar seus próprios níveis de estresse e equilíbrio ambiental.

“Pode ser que a pressão térmica em um bairro se manifeste de forma diferente em outro. Se tem uma coisa que você não pode fingir, é conforto metabólico”, conclui Artur Maia.