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21 de julho de 2024

Liberdade, equidade e vento no rosto por meio de pedal adaptado

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Projeto integrado à política estadual que ocorre na Praia de Iracema proporciona integração e lazer para pessoas com deficiência em Fortaleza. Próxima edição será sétima deste ano

Ingrid Campos
ingrid.campos@opiniaoce.com.br

Edições ocorrem a cada quinze dias na PI, sempre aos sábados (Fotos: Natinho Rodrigues)

A capital da conhecida Terra da Luz não fez jus ao título, no último sábado, 19, e manteve seu tempo nublado ao longo do dia. Isto, no entanto, não impediu que pessoas frequentassem a orla de Fortaleza, principalmente o trecho da Praia de Iracema.

No local, entre turistas, ciclistas e banhistas já familiarizados com o espaço, um grupo pôde ter experiências que lhes são restritas ou inexistentes no cotidiano, em razão do projeto Bike Sem Barreiras, que ofereceu um passeio de bicicleta adaptado a pessoas com deficiência (PCDs) na data.

O programa ocorre quinzenalmente. As atividades fazem parte da política estadual de Praia Acessível. Com a integração, a experiência no litoral é completa: do banho de mar ao passeio ciclístico, PCDs e acompanhantes podem curtir tranquilamente e sem medo. É o caso de Ítalo Ribeiro, 21.

O jovem já tem afinidade com a praia e sempre vai aos fins de semana dar um mergulho adaptado com os profissionais disponíveis no local. No sábado, Ribeiro aproveitou para pedalar.

“Essa é a primeira vez que participo do Bike Sem Barreiras. Aqui tá sendo muito bom, ajuda muita gente que precisa ter ouvida a sua voz. A gente sofre muito preconceito, mas vamos quebrar esse tabu.” Naquele dia, o jovem aproveitou o passeio pelo menos duas vezes, prometendo andar de bicicleta mais um pouco ao longo do dia. Ítalo afirmou, ainda, que pretende ficar de olho na programação e voltar na próxima edição, que deve ocorrer em 2 de abril.

DIFERENTES IDADES
Katia Barbosa, 42, também aproveitou a ação. Assim como Ítalo, Katia foi notificada da programação pela Empresa de Transporte Público de Fortaleza (Etufor). O órgão, que é responsável pelo cadastramento e confecção das carteiras de gratuidade dos PCDs da Capital, viabilizou, na edição, a cessão de um ônibus para levá-los à praia. “Foi bom hoje. Daqui a pouco eu vou tomar um banho de mar.”

Para Katia, essa foi uma oportunidade de voltar a andar de bicicleta, o que não fazia há 15 anos por medo, após ter o equipamento levado em um assalto. Outra pessoa que curtiu o sábado de ciclismo foi Ivonete Costa, 57. A telefonista do setor da Etufor é quem dá encaminhamento ao cartão de gratuidade, mas como PCD, nunca tinha aproveitado as atividades do Praia Acessível. Ivonete conheceu de perto o programa pela primeira vez.

“Tô gostando muito. Tá sendo interessante. Eu já tinha andado uma vez quando era mais nova, mas na bicicleta normal mesmo. Aqui, depois que eu peguei o macete no braço, aí pronto”, disse Ivonete. O veículo usado era um triciclo adaptado com mecanismo de “handbike”, ou seja, movida com a força das mãos. Além desse modelo, foi disponibilizada uma Tandem, que tem dois assentos e quatro pedais, e uma “the duet”,bike composta por uma cadeira de rodas no lugar da roda dianteira.

O passeio é benéfico a pessoas com deficiência e responsáveis, na maioria das vezes é figura feminina, como mãe ou avó. “Elas passam 24, 48, 72 horas com a pessoa e não têm um momento de lazer. A gente proporciona isso para as PCDs, mas as mães acabam aproveitando”, aponta Elvis Alves, gerente do Praia Acessível. Sua fala é compartilhada por Maria Rocilda, avó de João Pedro, 15. O jovem foi aproveitar o combo do programa, enquanto Maria curtiu o vento fresco da praia para “se distrair mais.”

“Ele não sai de casa, não gosta de passeio. Já perdi até casamento porque ele disse ‘vá, mas eu não vou’, só que eu não vou deixar ele só.” Seu neto está no nível 1 do transtorno do espectro autista (TEA), o que explica a sua preferência por isolamento. Por isso, a avó aprova a atividade oferecida e diz, ainda, que pretende voltar ao local com a outra neta de 11 anos, que tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

A situação é a mesma da mãe de Rustem Ferreira, de 36 anos, chamada Iramiza Ferreira. “É um lazer para mim. Fico só dentro de casa: é de casa para a escola (centro de integração psicossocial), da escola para casa. Não tenho um lazer. É muito importante isso o que eles estão fazendo para as pessoas com deficiência”, disse Iramiza.

Política de integração
A edição de sábado do Bike sem Barreiras foi a sexta do programa, iniciativa promovida pela Prefeitura de Fortaleza e executada pela Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC).

O órgão ainda recebe suporte da Empresa de Transporte Público de Fortaleza (Etufor), como já foi citado, além da Guarda Municipal de Fortaleza (GMF), do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará (CBMCE) e do setor privado, como é o caso da Universidade Maurício de Nassau (Uninassau), que disponibilizou estudantes do curso de Fisioterapia para orientação e condução das bicicletas.

O foco das atividades são pessoas com deficiência, com mobilidade reduzida ou autistas, que são atraídas para o local em busca de prática do ciclismo e integração com a cidade. Por isso, a Prefeitura de Fortaleza ressalta que não é necessário agendamento prévio para ter acesso aos passeios, apenas a apresentação de um documento de identificação com foto na tenda do programa, que funciona ao lado do Centro Cultural Belchior e em frente ao projeto Praia Acessível.

Como destaca Alves, em dezembro de 2021, o programa atendeu 363 pessoas. O número, explica, caiu em janeiro e em fevereiro deste ano devido ao cenário epidemiológico de gripe H3N2 e de terceira onda da pandemia. Somente este mês o movimento voltou a crescer. “Vocês que já tomaram a dose de reforço, que se cuidam, não tenham medo de vir. De que adianta o medo de morrer sem ter o prazer de viver?”, conclui. (Ingrid Campos)

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