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Inaugurado há 12 anos, projeto ‘Caminhos de Assis’ pode renascer e voltar a acolher romeiros

O projeto, anunciado ainda na gestão do ex-governador Cid Gomes, custou cerca de R$ 1,5 milhão, à época
Ponto de apoio na cidade de Caridade. Foto: Natinho Rodrigues

Em abril de 2012, o então governador Cid Gomes inaugurou o projeto Caminhos de Assis, que criou cinco estações que serviriam de apoio aos romeiros, entre Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, e Canindé, no Interior do Estado. O investimento custou aos cofres do Governo do Estado cerca de R$ 1,5 milhão. Os equipamentos foram construídos para acolher cerca 160 peregrinos, com espaços para dormitório coletivo, banheiros, refeitório, oratório e obelisco.

Passados quase 12 anos da entrega, o OPINIÃO CE percorreu o percurso e visitou as cinco estações entregues, que ficam nas localidades de Ladeira Grande, Massapê e Lagoa do Juvenal, em Maranguape; e em Campos Belos e na sede de Caridade. Os espaços apresentam situações bem distintas: alguns estão sem gerenciamento, dando sinais de abandono, outros estão sob os cuidados da Prefeitura, como no caso deste último. Um projeto recente, no entanto, visa revitalizar os pontos de peregrinação, pensando, principalmente, para atender os romeiros que fazem o trajeto a pé da Região Metropolitana de Fortaleza ao Santuário de São Francisco das Chagas, em Canindé. O percurso é de aproximadamente 136 quilômetros.

A ideia, à época, era criar espaços com melhor conforto e tornar o percurso mais seguro para os romeiros, com energia elétrica, acesso à água potável e área de repouso. “Essas estações vão motivar os romeiros a visitarem no dia 4 de todo mês”, destacou Cid Gomes, na ocasião da inauguração. O então secretário de Turismo do Ceará, Bismarck Maia, também enxergou, naquele momento, o projeto com otimismo e especulou um aumento de 20% no fluxo de turistas, além do incremento anual de R$ 20 milhões na economia de Canindé.

Abrigo da Ladeira Grande, entre Maranguape e Canindé. Foto: Natinho Rodrigues

SITUAÇÃO

Em Lagoa Juvenal, a primeira estação está sendo utilizada como local de descanso para quem viaja e trabalha na região. Segundo os moradores, ali abriga a Feira da Agricultura Familiar de Maranguape, que acontece aos sábados, onde são comercializados, além de legumes, verduras, frutas, animais e itens como roupas. Lá, contudo, não havia ninguém responsável por administrar o espaço. Visitado pelo OPINIÃO CE no último dia 24 de janeiro, os banheiros e a área de refeitório estavam fechados.

A segunda estação, em Massapê, apresenta sinais de abandono. A vegetação avança em parte do complexo, uma pia foi retirada e algumas das cerâmicas estão quebradas. O piso e as paredes também apresentam manchas. De acordo com um morador, que preferiu não se identificar, o equipamento só funciona próximo do período da romaria. “No resto do ano não tem nada. Falta um zelador, uma pessoa cuidando”, acredita.

Segundo ele, um poço profundo foi perfurado para captação de água, mas não atende à estação porque a bomba está com defeito, foi retirada para conserto, mas ainda não foi devolvida. Hoje, o equipamento de Massapê não abriga nenhuma atividade local e não tem servido à comunidade. “A intenção antes era que ali fosse uma quadra, aí surgiu o Caminho de Assis, que disseram que seria bom para nós”, completou o morador.

O último ponto, ainda no território de Maranguape, é a estação de Lagoa do Juvenal, que fica na metade do caminho. Lá, a situação é mais complicada, pois, segundo os moradores, a estação foi construída num terreno que pertence ao antigo Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes do Estado do Ceará (DERT). Por isso, o acesso ao equipamento fica fechado, está cercado por um muro e tem servido de depósito de carros antigos.

Para suprir a ausência, o pedreiro e empresário Ubiratan Martins está construindo um espaço que acolha os romeiros do seu grupo, chamado “Caminhada com Amor e Fé”, que sai do bairro Canindezinho, em Fortaleza. Com recursos de particulares e apoio de empresários, o espaço foi batizado de Terra Prometida e cumpre aquilo que foi pensado o projeto Caminhos de Assim: acolher os peregrinos com conforto. Lá, há banheiros, uma capela e está sendo construído um refeitório e espaço de lazer.

“Aqui vai servir para todos os romeiros, não só do meu grupo. Mas tem que ter um organizador para receber o espaço limpo e entregar limpo. Quem vem com baderna, bebida, serão excluídos. Quem quiser vir, tem que vir na iminência de romaria, de oração e fé”, sentencia Ubiratan. Com um ano e dois meses de obras, a Terra Prometida ainda recebeu romeiros no ano passado, de forma precária. Para este ano, a expectativa é que esteja pronto e acolha até 150 romeiros e 10 pessoas que fazem apoio ao grupo.

Devoto de São Francisco, Ubiratan Martins está revitalizando o espaço para acolher outros fiéis. Foto: Natinho Rodrigues

Desde criança, Ubiratan visita Canindé. Tudo começou com sua família, em cima dos chamados “paus-de-arara”, caminhões improvisados para o transporte de passageiros, que hoje é irregular. Em seguida, começou a organizar um grupo para viajar de ônibus, em cumprimento de uma promessa que fez para sair das ruas. “Eu pedi um lar e consegui”, lembra. Porém, as viagens no coletivo não agradaram o romeiro. “Virou bagunça. Era gente bebendo, outros faltavam e iam vazios. Aquilo me deu desgosto”.

Foi então que decidiu iniciar o percurso a pé, tradição que o acompanhará, em 2024, há 15 anos. “Comecei convidando o terço dos homens para vir comigo. Um grupo de 17 pessoas que, se tem noção, sofreu muito. Andamos no sol, fizemos calos nos pés”, recorda. Mesmo com as dificuldades, o grupo foi aumentando e, atualmente, é composto por 150 romeiros de Fortaleza. Como coordenador de romaria, o pedreiro se prepara três meses antes de ir até Canindé. Sua programação é composta de corridas diárias de 25 quilômetros, que dão condições de suportar mais de 12 horas de caminhada.

“Por coordenar, um me chama na frente da caminhada, outro atrás. Fico indo e voltando. Então, tenho que ter um preparo físico diferente dos outros”, explica.

O ambiente de peregrinação, na sua avaliação, só funciona se for em respeito à fé franciscana, que prega a igualdade. “O romeiro deixa toda riqueza e vai caminhar com destino de fazer sua penitência. O que encontrar no caminho é igual para todos. Se tiver luxo é para todos. Se tiver sol quente é para todos. Se tiver sombra é para todos. Com isso, a gente partilha a fé. Partilhar a fé com todos é ser igual a todos”, define Ubiratan.

CENÁRIO DIFERENTE

A quarta estação do projeto Caminho de Assis, na comunidade de Campos Belos, em Caridade, apresenta as melhores condições encontradas pela reportagem. A fachada foi recém pintada, os banheiros estão todos abertos e com água nas torneiras. A reportagem, contudo, não encontrou o responsável pela administração, mas, segundo os moradores, o espaço recebe cuidados regulares pelo Município.

Já a quinta e última estação, localizada na sede de Caridade, é administrada pela dona de casa Letícia Cavalcante, que mora ali a pedido da gestão municipal. Há um ano, ela é responsável por fazer a limpeza e manutenção da estação e receber os romeiros. As portas antigas dos banheiros foram recém-trocadas, pois as antigas se desgastaram. Por outro lado, o dormitório coletivo precisa ser retelhado, devido à força dos ventos. Para utilizar a estação, o grupo de romeiros precisa solicitar o uso na Basílica de Canindé e confirmar a data. “A partir de março, abril, já têm romeiros vindo”, confirma Luciana.

RECUPERAÇÃO

Em cerimônia, no último dia 5 de janeiro, em que anunciou uma série de investimentos no turismo cearense, o governador Elmano de Freitas (PT) confirmou que o projeto Caminhos de Assis será recuperado. Em nota, a Secretaria de Turismo do Estado (Setur) confirmou que haverá uma revitalização e reestruturação dos espaços físicos e sociais com participação da comunidade. “A reforma e reestruturação prevê melhorias nos espaços já concebidos no projeto original. Ainda estamos em estudo para possível implementação de algum outro tipo de serviço”, disse.

Basílica de São Francisco das Chagas, em Canindé, também recebeu investimentos. Foto: Natinho Rodrigues

Outro anúncio importante dado pelo gestor foram as intervenções na Basílica de São Francisco das Chagas, que estão sendo realizadas em duas fases: pintura e iluminação, pela Superintendência de Obras Públicas (SOP); e o restauro dos afrescos, pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult). A primeira obra iniciou neste mês com a retirada da antiga iluminação e raspagem da pintura para ser adequada à identidade visual histórica do santuário.

Já o restauro dos afrescos, as pinturas internas, será feita por mão de obra especializada para realizar a intervenção nas pinturas artísticas do pintor alemão Georg Krau. Ao todo, serão investidos cerca de R$ 3 milhões no restauro e manutenção do prédio religioso, tombado desde 2010 pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (COEPA). A expectativa é que a entrega seja feita para os próximos festejos de Canindé, em setembro de 2024.