Aos 81 anos, o mestre Françuli ainda quer voar. Mas não é voar por uma companhia aérea, é voar com um avião fabricado por si próprio. O sonho do artesão vem desde os seis anos de idade quando avistou uma aeronave, pela primeira vez, ao voltar da roça. Assustado, perguntou ao seu pai: “que pássaro é aquele que não bate as asas?”. O “pássaro” em questão se tornou uma fixação e se materializou nas suas mãos, ainda menino, quando o fabricava como brinquedo de madeira. Mais tarde, nas folhas de flandre e zinco, seria reconhecido como “o inventor do sertão”.
Filho do casal Antônio e Maria, Francisco Dias, o mestre Françuli, nasceu em Potengi, cidade do Cariri Oeste notabilizada pelo trabalho dos ferreiros, profissionais que de forma artesanal dão vida a facas, foices, enxadas e outros instrumentos. Outra tradição para uma pequena cidade do sertão de 11 mil habitantes é, obviamente, a agricultura. Foi com ela que ajudou sua família, ainda pequeno.
Apesar de trabalhar com seus pais na roça, a memória do avião que sobrevoou o pequeno Francisco não saiu de sua cabeça. Aos oito anos, começou a reproduzi-los em madeira para brincar com outras crianças, mas eram mais fáceis de quebrar. A persistência o fez trocar de material, substituindo a madeira por latas de óleo e sardinha, que eram jogadas no lixo. Françuli abria o objeto e, então, os moldava com a tesoura de Maria às escondidas. Os aviões foram um sucesso com seus amigos.

A paixão acabou se tornando a profissão de Françuli. Do material jogado ao lixo, transformava em aviões, ultraleves, paraquedas e helicópteros, em processos que duram de dois a dez dias, a depender do tamanho do objeto. Neste processo, utiliza martelo, tesoura, bigorna e compasso. Todos os instrumentos feitos por ele. “Eu risco antes de cortar e depois emendo, fazendo peça por peça. Depois eu junto”, explica. A fabricação ainda é assistida por um esmeril e máquina de solda. A pintura é finalizada à mão.
Em 1971, ele se mudou do sítio Marmeleiro, para morar na sede de Potengi. Lá, criou sua oficina e começou a vender os aviões que continua fabricando, até hoje, mesmo com o avançar da idade. “Foi assim que criei os meus seus filhos”, garante. O trabalho só chegou a ser interrompido em 2018, quando descobriu uma bactéria na perna que o impediu de andar por quase um ano. Hoje, recuperado, comemora que vai entregar nesta semana uma encomenda de 46 aviões. Os preços variam de R$ 35 a R$45. “Vendi tudo dos pequenos”, adianta. O volume o faz comprar de 100 a 200 rolos de zinco.
MUSEU ORGÂNICO
Há 14 anos, Françuli resolveu criar um museu, ao lado de sua oficina, por conta própria. Com ajuda de professores e pesquisadores, a exposição de suas peças ficou aberta por um tempo, mas fechou. Em 2018, como parte do projeto dos museus orgânicos do Cariri, iniciativa do Serviço Social do Comércio (Sesc) em parceria com a Fundação Casa Grande, o espaço foi reinaugurado com nova pintura, estrutura e disposição de peças. No próximo mês de novembro, completam-se cinco anos da reabertura. “É gente direto aqui. Toda semana tem visita”, detalha o artesão.
Idealizador do projeto, Alemberg Quindins, da Fundação Casa Grande, explica que já havia um circuito na região do Cariri onde as casas dos mestres são visitadas para conhecer a cultura popular local. Disso, o projeto dos museus orgânicos oferece uma nova experiência no contato direto com a casa e a família dos artesãos, brincantes e fazedores da cultura. “Isso acaba fomentando toda uma cadeia nestas cidades e no entorno”, justifica. Além da casa de Françuli, Potengi possui mais dois museus orgânicos, Museu Casa do Mestre Antonio Luiz, líder do reisado de couro, e o Museu Casa dos Pássaros do Sertão.
SONHO
Françuli viajou pela primeira vez de avião já adulto, em visita a Macapá. “Fiquei nervoso só quando estava no chão, quando levantou voo já tava tranquilo”, brinca. Em 2016, foi reconhecido como Mestre da Cultura cearense pela Lei dos Tesouros Vivos do Estado. A partir de então, as viagens aéreas foram mais frequentes.
No entanto, seu grande sonho é voar num avião construído por suas próprias mãos e isso não sai da sua cabeça. O artesão já chegou a construir uma aeronave que, de uma ponta a outra de cada asa, chegava a alcançar oito metros. “Aí adoeci e, hoje, trabalho todo dia. Ainda não tô totalmente bem, sadio. Mas esse sonho nunca para”, garante. Em janeiro, Françuli alcança seus 82 anos, ativo e recebendo visitantes do seu museu orgânico, que fica na Rua Santana Guedes, número 51, no Centro de Potengi, próximo à Igreja Matriz de São José.
