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Movimento resgata Beata Maria de Araújo, protagonista do ‘Milagre de Juazeiro’

Alvo das primeiras romarias, beata Maria de Araújo passou seus 20 últimos anos de vida enclausurada. Túmulo foi violado e restos mortais foram roubados
Foto Thiago Sousa/Divulgação

A inauguração de uma estátua em tamanho real da beata Maria de Araújo, ao lado de esculturas do Padre Cícero e do Monsenhor Murilo de Sá Barrado, que ocorreu na última semana, marca o resgate da memória da protagonista do chamado “milagre de Juazeiro” — evento crucial para transformar o pequeno povoado em um dos mais importantes municípios do Ceará.

Há cinco anos, pesquisadores, artistas e professores lutam para que a fiel devota do “padrinho”, que viu a hóstia se transformar em sangue na sua boca, tenha o devido reconhecimento do poder público e da Igreja Católica.

Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, a beata Maria de Araújo, consagrou a hóstia em sangue, pela primeira vez, em 1889, mas antes já havia manifestado estigmas, visões, profecias e viajava em espírito para salvar as almas do purgatório. Muitos destes milagres creditados ao Padre Cícero. Naquele ano, ela chegou a transformar o “corpo de Cristo” em sangue por, pelo menos, 82 vezes. Nesta época, começaram a surgir as primeiras romarias com destino a sua casa.

Após grande repercussão, a Igreja enviou, por dois momentos, padres até Juazeiro do Norte para analisar o caso. A primeira comissão concluiu que não havia explicação natural para os fatos ocorridos, enquanto a segunda os condenou como “embuste”.

O Padre Cícero, que acreditava nos milagres, teve suas ordens suspensas. A beata foi sentenciada à reclusão, em 1894, onde permaneceu até a sua morte, no dia 17 de janeiro de 1914. Seu corpo foi colocado na Capela do Socorro, mas o túmulo foi violado e destruído, em 1930. Seus restos mortais foram roubados e, até hoje, ninguém sabe do seu paradeiro. Da cidade que cresceu e se desenvolveu a partir do fenômeno do milagre, pouca coisa restou de Maria de Araújo.

Um vitral na Capela do Socorro, uma rua no bairro João Cabral, uma estátua no Museu Vivo do Padre Cícero, no Horto, uma praça em seu nome e um jazigo vazio. Os próprios romeiros chegam a confundi-la com a beata Mocinha, outra devota de confiança do Padre Cícero. “Não sei contar, mas já ouvi falar que ela fez muito milagre com o Padre Cícero e que ela é muito importante”, admite a aposentada e romeira Severina Ferreira.

A partir de 2018, surgiu o Movimento de Reabilitação da Memória da Beata Maria de Araújo, que atualmente é formado por cerca de 30 pessoas. Sua primeira ação foi, naquele ano, participar de uma caminhada na Romaria de Candeias e questionar: “Onde estão os restos mortais de Maria de Araújo?”.

Desde então, a iniciativa foi crescendo e o grupo já realizou seminários, momentos religiosos e o aniversário da beata. “Nós trabalhamos em três eixos. Um que busca questionar a igreja. Outro que trabalha a questão institucional e o terceiro em fazer esse momento ecumênico”, detalha o professor André Andrade.

Dessa articulação, o movimento já conseguiu aprovar duas leis municipais. A primeira instituiu o dia 1º de março como o “Dia do Milagre” e, o segundo, a colocação das imagens da beata nos espaços públicos que também recebem o Padre Cícero.

Outra ideia do grupo é a inclusão de Maria de Araújo no Hino de Juazeiro do Norte. A letra já conta com passagens sobre o Padre Cícero. “Entendemos que precisa adicionar mais uma estrofe que fale dessa origem histórica a partir do milagre. Afinal, não foi só o Padre Cícero o benfeitor”, acredita o professor.

A iniciativa também já conseguiu, junto à Secretaria de Cultura de Juazeiro do Norte, a realização de um simpósio e um livro de poesias sobre a beata. A expectativa, agora, é desenvolver a Semana Maria de Araújo para que sua memória também chegue às escolas.

“Cabe ela ser lembrada como uma mulher, negra, cidadã, importante para a formação das romarias e o crescimento demográfico. Tudo começou com o Padre Cícero e ela”, acrescenta André. A ideia é que o evento aconteça em maio, mês do seu nascimento.