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Fé em São Lázaro move a vida de músico em Juazeiro do Norte

Há mais de três décadas, João Bosco da Paz realiza um cortejo em homenagem ao santo e prepara um almoço para comer com os cachorros
Foto Antonio Rodrigues

Antonio Rodrigues
CORRESPONDENTE NO
INTERIOR DO ESTADO
antonio.rodrigues@opiniaoce.com.br

Padre Cícero, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Penha, Santo Antônio, Benigna Cardoso, Frei Damião. O elo entre a fé e o Cariri cearense passa por algumas dessas figuras do catolicismo. Contudo, são os altares nas entradas das casas que revelam o íntimo da fé de cada um. É onde a ligação entre intercessor e o devoto se manifesta.

E é mais ou menos assim na vida do músico aposentado João Bosco da Paz e sua adoração a São Lázaro.
Celebrado anualmente neste dia 17 de dezembro, São Lázaro ficou conhecido por ter sido ressuscitado por Jesus Cristo, segundo a Bíblia. Considerado o protetor dos enfermos e dos animais doentes, a devoção se materializou de forma curiosa na vida de João, que realiza anualmente, há 33 anos, realiza um cortejo pelas ruas de Juazeiro do Norte por uma graça alcançada.

Tudo começou quando uma infecção, agravada pela diabetes, ameaçou sua perna de ser amputada. A radiografia indicou que a perda deveria ser na altura do joelho. “Pelo poder e a força que o senhor tem, não deixe cortar minha perna, não, que fico fazendo sua oferta, de ano em ano, até eu morrer”, rogou João Bosco, lembrando-se de São Lázaro.

No dia da cirurgia, realizou novos exames na perna, e o médico constatou que não seria necessária a amputação total da perna. “Foi um milagre!.” Ainda assim, a infecção teve que ser contida em uma parte do pé, o que o fez perder alguns dedos. “Pelo que o médico havia falado, de perder a perna, fiquei muito feliz. Por isso, levo minha promessa até o dia que for enterrado.”
todos curtem

A tradição tomava as ruas do bairro João Cabral, onde morava, e era acompanhada a pé por muitos curiosos, a maioria crianças. Hoje, o devoto de São Lázaro mora nas ladeiras difíceis do bairro Horto, mas mantém sua promessa firmemente. Ao fim do cortejo, reúne os animais na calçada para alimentar-se junto com eles.

O cardápio inclui arroz, carne, macarrão e salada. Todos juntos sentados no chão. Com exceção dos cachorros mais doentes, que João Bosco faz questão em tê-los junto na sua mesa de jantar. O que sobra, é entregue para quem mais precisa.

Não é por acaso essa dedicação de João Bosco. Na Idade Média, São Lázaro era conhecido como o santo dos leprosos, por ser confundido com o personagem homônimo bíblico da parábola O Rico e Lázaro. A confusão o faz ser associado também como protetor dos enfermos e dos cachorros. Ao contrário da crença mais popular que credita a São Jorge o poder da cura, o aposentado garante: “É São Lázaro quem cuida dos doentes.”

João Bosco é também um exímio músico. Aos oito anos de idade ganhou de seu pai, João Damião da Paz, uma zabumba. Depois, aprendeu a dominar o som do pífano e dava aulas gratuitas para as crianças do seu antigo bairro. Lá, também formou a banda cabaçal São João Baptista. “Dou todo meu amor à cultura e ao reisado, que anda esquecido. A gente faz porque ama”, acredita.

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